quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

UMA VOZ NA PEDRA


UMA VOZ NA PEDRA

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal


*****

UNA VOZ EN LA PIEDRA

No sé
si respondo o si pregunto.
Soy una voz que nació en la penumbra del vacío.
Estoy un poco ebria y estoy creciendo en una piedra.
No tengo la sabiduría de la miel o del vino.
De repente me yergo como una torre de sombra radiante.
Mi ebriedad es la de la sed y la de la llama.
Con esta pequeña chispa quiero incendiar el silencio.
Lo que yo amo no sé. Amo en total abandono.
Siento mi boca dentro de los árboles y de una oculta aurora.
Indecisa y ardiente, algo aún no es flor en mí.
No estoy perdida, estoy entre el viento y el olvido.
Quiero conocer mi desnudez y ser el azul de la presencia.
No soy la destrucción ciega ni la esperanza imposible.
Soy alguien que espera ser abierto por una palabra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

PRECISÃO

PRECISÃO

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.


Clarice Lispector- Brasil


*****

PRECISIÓN

Lo que me tranquiliza
es que todo lo que existe,
existe con una precisión absoluta.
Lo que es del tamaño de una cabeza de alfiler
no se desborda en una fracción de milímetro
más allá del tamaño de una cabeza de alfiler.
Todo lo que existe es de una gran exactitud.
La pena es que la mayor parte de lo que existe
con esa exactitud
nos es técnicamente invisible.
Lo bueno es que la verdad nos llega
como un sentido secreto de las cosas.
Nosotros terminamos adivinando, confusos,
la perfección.


Clarise Lispector- Brasil
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

CORAÇÃO DE LOBA

CORAÇÃO DE LOBA


A woman wired in memories
Adrienne Rich

O sonho azul do filtro hastado de cervo na neve flui no coração de pedra. Já sabes, o céu é o amor convidado da águia que desdobra suas asas sobre o precipício dos poetas. É uma ilusão da luz durante a noite dos espelhos nas entranhas da água. As estrelas caídas no lago do silêncio enquanto as gralhas da fábula bicam o coaxar das rãs que desafiaram a languidez do lótus e esmigalham o gelo sob o gemido das nuvens e das cinzas permutadas pela chuva. Esquece-te de todas as línguas para dizer a morte, mas deixa um sinal de queimadura do amor: o fogo da combinação de rosas e répteis, a chamada à oração, aulidos de lobos que brincam nas rochas do sangue. O vento agita seus flocos de neve latindo nas sendas nuas do desejo.


Pére Bessó- Espanha
De El gran cafetar, 29 dezembro 2011.
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

COR DE LLOBA


A woman wired in memories
Adrienne Rich

El somni blau del filtre banyut de cérvol en la neu s’escola al cor de pedra. Ja saps, el cel és l’amor convidat de l’àguila que desplega les seues ales dalt de la timba dels poetes. És una il•lusió de la llum durant la nit dels espills en les entranyes de l’agua. Les estrelles caigudes en l’estany del silenci mentre les grues de la faula picotegen el rauc de les granotes que desafiaren la llangor del lotus esmicolen el gel sota el gemec dels núvols i les cendres bescanviades per la pluja. Oblida’t de totes les llengües per a dir la mort, però deixa un senyal de cremada de l’amor: el foc de la combinació de roses i rèptils, la crida a l’oració, udolaments de llops que juguen en les roques de la sang. El vent sacsa els seus flocs de neu clapint en les senderes nues del desig.


Pere Bessó- Espanya
De El gran cafetar, 29 desembre, 2011


*****

CORAZÓN DE LOBA

A woman wired in memories
Adrienne Rich

El sueño azul del filtro astado de ciervo en la nieve fluye en el corazón de piedra. Ya sabes, el cielo es el amor invitado del águila que despliega sus alas sobre el precipicio de los poetas. Es una ilusión de la luz durante la noche de los espejos en las entrañas del agua. Las estrellas caídas en el lago del silencio mientras las grúas de la fábula picotean el croar de las ranas que desafiaron la languidez del loto desmigan el hielo bajo el gemido de las nubes y las cenizas permutadas por la lluvia. Olvídate de todas las lenguas para decir la muerte, pero deja una señal de quemadura del amor: el fuego de la combinación de rosas y reptiles, la llamada a la oración, aullidos de lobos que juegan en las rocas de la sangre. El viento agita sus copos de nieve latiendo en los senderos desnudos del deseo.


Pere Bessó- España
De El gran cafetar, 29 diciembre, 2011

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

SONHO

SONHO

Sonho que és vida e eu morte…

Cheia de orgulho, como chuva
que se aferra à nudez
e açoita o penso da ferida.

Assim, recorro tuas costelas
combato na estação dos teus ossos
e faço história na ponte que vai do umbigo ao teu sexo.

Transito em azul meus desvarios
bordo nos teus olhos preces do dia a dia,
antes que o soluço venha copular com meu silêncio.

E beijo, o silvestre que pousa na tua boca
enquanto escrevo a cegas um nós
sobre a humidade da tua pele, toda.

Me cravo no teu peito ferido,
perfuro o ponto exacto da minha morte
e ponho minha alma de poesia, no teu vermelho sangue.

De tanta solidão
a letra deixa esteira em plumas amarelas
que não conseguem alçar-se e sussurram inválidas.

Me abro em direcção aos teus sonhos
que penetram a mortalha das minhas alucinações
e maldigo o fantasma do idioma.

Amas, até a minha sombra sabe,
mas não o meu segredo decifrado
nem o meu canto, nem minha ferida.


Rossana Arellano- Chile
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

SUEÑO

Sueño que eres vida y yo muerte…

Llena de orgullo, como lluvia
que se aferra a la desnudez
y azota el parche de la herida.

Así, recorro tus costillas
combato en la estación de tus huesos
y hago historia en el puente que va del ombligo a tu sexo.

Transito en azul mis desvaríos
bordo en tus ojos plegarias del día a día,
antes que el sollozo venga a copular con mi silencio.

Y beso, lo silvestre que se posa en tu boca
mientras escribo a ciegas un nosotros
sobre la humedad de tu piel, toda.

Me clavo a tu pecho herido,
perforo el punto exacto de mi muerte
y pongo mi alma de poesía, en tu rojo sangre.

De tanta soledad
la letra deja estela en plumas amarillas
que no logran alzarse y susurran minusválidas.

Me abro hacia tus sueños
que penetran la mortaja de mis alucinaciones
y maldigo al fantasma del idioma.

Amas, lo sabe hasta mi sombra,
pero no mi secreto descifrado
ni mi canto, ni mi herida.


Rossana Arellano- Chile

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

B.B.

B.B.

“…foi tocar-te o que nos deu a coragem para parir-te…
mas não pude eu
nascer ainda
meu próprio parto”

Beatriz Boca


Essa mulher que leva o nome
suicida e virginal que a alimenta,
.....................sente a morte.

Reconhece o assombro entre os seus dedos,
a origem da sua fome nas costelas
mordendo a avidez daquela ausência e

funde-se com o mar, desabotoa a noite
pulsando entre sua lava e as exéquias
e deslumbra, num tremor, toda a espera.

Essa mulher que leva o nome
suicida e virginal que a alimenta
...............renasce do seu ventre.


Leonel Licea- Cuba
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

B.B

“…fue tocarte lo que nos dio el valor para parirte…
pero no he podido yo
nacer aún
mi propio parto”

Beatriz Boca

Esa mujer que lleva el nombre
suicida y virginal que la alimenta,
...................siente la muerte.

Reconoce el asombro entre los dedos,
el origen de su hambre en las costillas
mordiendo la avidez de aquella ausencia y

se funde con el mar, desabotona la noche
pulsando entre su lava y las exequias
y deslumbra, en un temblor, toda la espera.

Esa mujer que lleva el nombre
suicida y virginal que la alimenta
................renace de su vientre.


Leonel Licea- Cuba

domingo, 26 de fevereiro de 2012

EMBOSCADA


EMBOSCADA

Na metade do caminho da minha vida,
de repente me encontrei num bosque escuro…
Dante, A Divina Comédia.

Quanta razão ladina há num transe de confusões
numa esquina dos temporais da vida,
numa cova de qualquer rua das profundidades
pior ainda, no escuro lugar que ocupam as entranhas,
ao tocar o fundo e encontrar-se só diante de uma cadeira vazia.
O espelho me devolve uma desconhecida
isca para a frialdade de Saturno, devorando a minha seiva.
Não há cédula de regresso. Emboscada do predador.
Uma cilada no horizonte que humilha o tempo saturado
alucinado temporal que medra o mais valente
rendendo contas com o mesmíssimo inferno.
Ali, naquele abismo, uma gota de luz ou água se entrega
se desprende a venda que cega
e nascem umas asas – de borboleta – à beira do vazio…
Asas de lágrimas cosidas nas costas,
doadas pela luz,
lentamente voas em direcção ao resplendor
e um mar tão antigo como o tempo se abre aos pés
e prendes a flor de alhos loucos à tua boca
habitando velhos desertos, agora balcões floridos.
Voo, voo tão longe como quer o meu sorriso
para libar o néctar das essências.
O nojo da melancolia deixa um sabor amargo
e naquela emboscada, prometo adivinhar sombras e luzes
e ainda que o fio esteja torcido segues no teu enxoval de bosques…


Setembro selenita e amaranto.


Marisa León- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

EMBOSCADA

A mitad de camino mi vida,
de repente me hallé en un bosque oscuro…
Dante, la Divina Comedia

Cuánta razón ladina hay en un trance de confusiones
en una esquina de los temporales de la vida,
en un socavón de cualquier calle de las profundidades
peor aún, en el oscuro lugar que ocupa las entrañas,
al tocar fondo y encontrarse sola ante una silla vacía.
El espejo me devuelve una desconocida
carnada para la frialdad de Saturno, devorando mi savia.
No hay cédula de regreso. Emboscada del depredador.
Un celaje en el horizonte que humilla al tiempo saturado
alucinado temporal que medra al más valiente
rindiendo cuentas con el mismísimo infierno.
Allí, en aquel abismo, una gota de luz o agua se entrega
se desprende la venda que ciega
y nacen unas alas –de mariposa- al filo del vacío…
Alas de lágrimas cosidas a la espalda, donadas por la luz,
lentamente vuelas hacia el resplandor
y un mar tan antiguo como el tiempo se abre a los pies
y prendes la flor de ajos locos a tu boca
habitando viejos desiertos, ahora balcones floridos.
Vuelo, vuelo tan lejos como quiere mi sonrisa
para libar el néctar de las esencias.
El empalago de la melancolía deja un sabor amargo
y en aquella emboscada, prometo adivinar sombras y luces
y aunque torcido el hilo sigues en tu ajuar de bosques…


Septiembre selenita y amaranto.

Marisa León- España

sábado, 25 de fevereiro de 2012

OS DEMÓNIOS NASCIAM NA ITÁLIA

OS DEMÓNIOS NASCIAM NA ITÁLIA

Os demónios nasciam na Itália
nos campanários abandonados
cada noite em que nós dormíamos
aconchegados junto à Fontana di Trevi.

Demónios pequenos como rugas
nas mãos
que ninguém olha
a não ser que o rosto
se contorça pelo terror:
(nossa máscara de aço
não pode ocultar a sinceridade
da carne,
última delatora de todas as idades
e quando o seu candor empalidece,
autêntico nome da morte).
Os demónios subiam-nos pelos cabelos
e acampavam nas nossas estreitezas,
nos resquícios abertos ao vento
dos nossos beijos,
entre as unhas que arranhavam
a pele nua e mutilada
dos nossos corpos,
entre os talos de grama
que se haviam pegado aos nossos dedos.

Rostos senis com corpos de andorinha,
que ninguém vê,
excepto nas caricaturas hilariantes
inúteis e irreversíveis
do poema.


Rosalía Linde – Espanha
Do poemário “Ossos de anjo”
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

LOS DEMONIOS LE NACÍAN A ITALIA

Los demonios le nacían a Italia
en los campanarios abandonados
cada noche que nosotros dormíamos
acurrucados junto a la Fontana de Trevi.

Demonios pequeños como arrugas
en las manos,
que nadie mira
a no ser que el rostro
se contorsione por el terror:
(nuestra máscara de acero
no puede ocultar la sinceridad
de la carne,
última delatora de todas las edades
y cuando su candor palidece,
auténtico nombre de la muerte.)

Los demonios se nos subían por el pelo
y acampaban en nuestras estrecheces,
en los resquicios abiertos al viento
de nuestros besos,
entre las uñas que arañaban
la piel desnuda y mutilada
de nuestros cuerpos,
entre las briznas de hierba
que se nos habían pegado a los dedos.

Rostros seniles con cuerpos de vencejo,
que nadie ve,
excepto en las caricaturas hilarantes
inútiles e irreversibles
del poema.


Rosalía Linde- España
Del poemario "Huesos de ángel"

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR


NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

Eu nunca quis ser pássaro.
E não sei porque insisto em conservar as asas.

Por dizê-lo sem sombra de retórica,
me acomodo de bruços em algo que ameaça
ser uma reflexão de ordem sensorial:

Acabo de instalar no telefone
um poema sinfônico de Liszt.
Daí se infere um ego demitido
da minha geração Kerouak-Ginsberg.

E há outros sintomas:
me sinto um samurai em floresta de espelhos,
navego a claraboia num barco sem convés.
Noto que só me falta, para não ser eu mesma,
adquirir uma casa na Toscana.

No entanto, isso não era previsível
quando deixei atrás as minhas margens
levando certa urgência em esquecer,
um guarda-chuva – pode ser que chova –
e sete lenços de dizer adeus.

Cheguei despaginada ao outro lado
desta longa e confusa travessia.
Mais me vale assumir que escorreguei da bússola
e caí no regaço do sistema.

Deveriam vender em algum quiosque
um breviário que ensine uma mulher
a não desescrever a própria história.

(O que há de escandaloso na poesia
é que falamos sempre de nós mesmos.)


Tania Alegria- Brasil


*****

EN PRIMERA PERSONA DEL SINGULAR

Nunca quise ser pájaro.
No sé por qué insisto en mantener las alas.

Por decirlo sin sombra de retórica
me acomodo de bruces en algo que amenaza
ser una reflexión de orden sensorial:

Acabo de instalar en el teléfono
un poema sinfónico de Liszt,
donde se infiere un ego dimitido
de mi generación Kerouak-Ginsberg.

Hay otros síntomas:
Me pienso samurái en un bosque de espejos.
Navego el tragaluz en un barco sin quillas.
Sólo me falta para ser otra persona
que me compre una casa en la Toscana.

Nada de eso estaba en lo previsto
cuando dejé mis márgenes
llevándome un olvido de la mano,
paraguas –por si llueve–
y mis pañuelos de decir adiós.

Llegué despaginada al otro lado
de mis cincuenta y siete travesías.
Mejor asumo que desvié la brújula
y me dejé caer en el sistema.

Deberían vender en algún sitio
un manual de existencia que enseñe una mujer
a no desescribir su propia historia.

(Lo que hay de impudicia en los poemas
es que una habla siempre de sí misma).

*
*
Tania Alegria- Brasil

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A PERGUNTA


A PERGUNTA

Quando a dor é vento,
esvazia a palavra
seu coração, que é vela,
e as ondas se assombram.
Tão delgadas as suas mãos
postas na razão,
que ao crê-la tão sua
me devolve impoluta
a carícia do alento.
Posso gritar,

sem sobressaltar as plumas
das suas ternas asas,
provocar uma vaga de braços
que não afecte a sua corrente,
flutuar na taça
da sua cara de céu.
Mas não posso lamber
a secura dos seus olhos,
nem afundar-me na infância
que me faça sonhar
com o oco perfeito,
para um verso milagre.
Rompe a correr a noite,
há um vapor de formigas
que trota e me desperta;
quem vigia sua luz
se cobre com a pergunta
que oferece aos meus ombros:
Que se pode fazer
diante da dor de um anjo?


Mamen Alegre- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria


*****

LA PREGUNTA

Cuando el dolor es viento,
ahueca la palabra
su corazón, que es vela,
y las olas se asombran.
Tan delgadas sus manos
puestas en la razón,
que al creerla tan suya
me devuelve impoluta
la caricia del aliento.
Puedo gritar,
sin sobresaltar las plumas
de sus tiernas alas,
provocar un oleaje de brazos
que no afecte a su corriente,
flotar en la taza
de su cara de cielo.
Pero no puedo lamer
lo seco de sus ojos,
ni hundirme en la infancia
que me haga soñar
con el hueco perfecto,
para un verso milagro.
Rompe a correr la noche,
hay un vapor de hormigas
que trota y me despierta;
quien vigila su luz
se cubre con la pregunta
que ofrece para mis hombros:
¿Qué se puede hacer
ante el dolor de un ángel?


Mamen Alegre- España

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O TERMÓMETRO MARCA DOIS GRAUS

O TERMÓMETRO MARCA DOIS GRAUS

O termómetro marca dois graus,
as ruas te recordam com seu frio
e eu caminho rápido
para que a garoa não me inunde.

Este inverno é muito duro,
estás na minha memória
ainda que ninguém nos veja quase nunca.

Gosto de contemplar a realidade
de uma cidade sem fumo
que boceja na noite
enquanto as pessoas abrem seus guarda-chuvas.

Deambulo por calçadas
e observo sem temor
as vitrinas
das lojas.

Dá no mesmo que haja saldos
já quase ninguém compra.
Uns estão no desemprego
por isso não visitam os centros comerciais,
outros têm trabalho,
mas vão perdê-lo
e puxam pela roupa de outros anos.

O frio é mais intenso
com a crise calando nas entranhas.

Há uns que dominam
o mercado bolsista
de acções e futuros
que querem que as pessoas
se ponham de joelhos
e soltem o que têm a baixo preço.

Mas ninguém se rende.
Então apertam-nos, outra volta da anilha
e ainda mais…

Os recursos existem
em grandes quantidades.
Existe a abundância,
Mas também existem uns Aliens
de genética humana que procuram arruinar-nos como seja.

Mas ninguém se rende
e seguimos em pé até o final…

O termómetro marca dois graus
o frio das praças e parques
nos lacera os ossos e o espírito…

Te
olho
descendo
por avenidas cheias de semáforos
e o teu sorriso cálido faz com que as geadas
pareçam menos frias.


Ana Muela Sopeña- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria
*****

EL TERMÓMETRO MARCA DOS GRADOS

El termómetro marca dos grados,
las calles te recuerdan con su frío
y yo camino rápido
para que la llovizna no me inunde.

Este invierno es muy duro,
estás en mi memoria
aunque nadie nos vea casi nunca.

Me gusta contemplar la realidad
de una ciudad sin humo
que bosteza en la noche,
mientras la gente abre sus paraguas.

Deambulo por aceras
y observo sin temor
los escaparates
de las tiendas.

Da igual que haya rebajas
ya casi nadie compra.
Unos están en paro,
por eso no visitan los centros comerciales,

otros tienen trabajo,
pero van a perderlo
y tiran con la ropa de otros años.

El frío es más intenso
con la crisis calando en las entrañas.

Hay unos que dominan
el mercado bursátil
de acciones y futuros
que quieren que la gente
se ponga de rodillas
y suelte lo que tiene a bajo precio.

Pero nadie se rinde.
Entonces nos aprietan, otra vuelta de tuerca
y todavía más...

Pero nadie se rinde.

Los recursos existen
en grandes cantidades.
Existe la abundancia,
pero también existen unos Aliens
de genética humana que buscan arruinarnos como sea.

Pero nadie se rinde
y seguimos en pie hasta el final...

El termómetro marca dos grados
el frío de las plazas y los parques
nos lacera los huesos y el espíritu...

Pero nadie se rinde
y estás en mi recuerdo.

Te
miro
descendiendo
por avenidas llenas de semáforos
y tu sonrisa cálida hace que las heladas
parezcan menos frías.


Ana Muela Sopeña- España

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

AS CAPAS

AS CAPAS

Como uma onda atrás da outra,
uma folha dobrando-se sobre a anterior,
um degrau depois do outro,
ou a correcção de uma pincelada,
tua vida te leve a triunfar.
Como o estudante que quer sobressair,
e quando acaba
volta a começar.


Helena Bonals- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria
*****

LES CAPES

Comuna onada rere l'altra,
un full que es plega sobre l'anterior,
un esglaó rere un altre,
o una pinzellada correctora,
la teva vida et porta a reeixir.
Com l'estudiant que vol excel·lir,
i quan ha acabat
torna a començar.

Helena Bonals- Espanya

*****

LAS CAPAS

Como una ola tras de otra,
una hoja doblándose sobre la anterior,
un peldaño tras otro,
o la corrección de una pincelada,
tu vida te lleva a triunfar.
Como el estudiante que quiere sobresalir,
y cuando acaba,
vuelve a empezar.


Helena Bonals- España

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

SENTIR

SENTIR

Sentir
o tacto dos dedos sobre o papel,
escutar
a canção que embala
berços de insónia onde aninham sonhos
que se abraçam ao amor,
converter
o inferno numa explosão de gozo e prazer,
despertar
ao amanhecer com o fogo na pele,
ficar presa
pelo dardo que faz florescer a geada,
sonhar
desperta, com os olhos nas mãos,
e acariciar
a vida, como se fosse uma prenda.


Joana Navarro- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria
*****

SENTIR

Sentir
el tacte dels dits al paper,
escoltar
la cançó que bressola
llits d’insomni on nien somnis
que abracen l'estima,
convertir
l’infern en una explosió de goig i plaer,
despertar
a l’alba amb el foc en la pell,
quedar presa
pel dard que fa florir el gebre,
somniar
desperta, amb els ulls a les mans,
i acaronar
la vida, com si fos un regal.

Joana Navarro: Espanya

*****

SENTIR

Sentir
el tacto de los dedos sobre el papel,
escuchar
la canción que mece
cunas de insomnio donde anidan sueños
que se abrazan al amor,
convertir
el infierno en una explosión de gozo y placer,
despertar
al amanecer con el fuego en la piel,
quedar prendida
por el dardo que hace florecer la escarcha,
soñar
despierta, con los ojos en las manos,
y acariciar
la vida, como si fuera un regalo.


Joana Navarro- España

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ESPELHO


ESPELHO

Há uma noite,
um tempo oco, sem testemunhas,
uma noite de unhas e silêncio,
páramo sem margens,
ilha de gelo entre os dias;
uma noite sem ninguém
senão a sua solidão multiplicada.

Regressa-se de uns lábios
nocturnos, fluviais,
lentas margens de coral e seiva,
de um desejo, erguido
como a flor sob a chuva, insone
colar de fogo no pescoço da noite,
ou se regressa de si mesmo a si mesmo,
e entre espelhos impávidos um rosto
me repete ao meu rosto, um rosto
que mascara o meu rosto.

Diante dos jogos fátuos do espelho
meu ser é pira e é cinza,
respira e é cinza,
e ardo e me queimo e resplandeço e minto
um eu que empunha, morto,
uma adaga de fumo que lhe finge
a evidência de sangue da ferida,
e um eu, meu eu penúltimo,
que só pede esquecimento, sombra, nada,
final mentira que o acende e queima.

De uma máscara a outra
há sempre um eu penúltimo que pede.
E me afundo em mim mesmo e não me toco.
Octavio Paz- México
Tradução ao português: Tania Alegria
*****

ESPEJO

Hay una noche,
un tiempo hueco, sin testigos,
una noche de uñas y silencio,
páramo sin orillas,
isla de yelo entre los días;
una noche sin nadie
sino su soledad multiplicada.

Se regresa de unos labios
nocturnos, fluviales,
lentas orillas de coral y savia,
de un deseo, erguido
como la flor bajo la lluvia, insomne
collar de fuego al cuello de la noche,
o se regresa de uno mismo a uno mismo,
y entre espejos impávidos un rostro
me repite a mi rostro, un rostro
que enmascara a mi rostro.

Frente a los juegos fatuos del espejo
mi ser es pira y es ceniza,
respira y es ceniza,
y ardo y me quemo y resplandezco y miento
un yo que empuña, muerto,
una daga de humo que le finge
la evidencia de sangre de la herida,
y un yo, mi yo penúltimo,
que sólo pide olvido, sombra, nada,
final mentira que lo enciende y quema.

De una máscara a otra
hay siempre un yo penúltimo que pide.

Y me hundo en mí mismo y no me toco.
Octavio Paz- México

NOVEMBRO

NOVEMBRO

– Que ninguém mencione aquele salto mortal e tua silhueta nítida cercada de papoilas –


Recordo,
sobre o gélido alento de Novembro,
uma estrada de flores na tua boca,
um perfume de sol,
uma loucura,
e meus pés suspendidos sobre o chão.

Na tua juventude um cansaço de cruzes,
uma súbita urgência
de viver e matar,
os mais amargos pousos dos meus lábios.
Como um anjo caído, sem nada que perder,
de par em par me abriste a porta do teu inferno.
Eu te amava.
Eu te amei.
Eu te amo e bendigo,
o caminho secreto dos teus passos.

Perdoa-me que grite este amor ao silêncio,
que só fique em mim ternura sem destino,
um suicídio na noite, que devora,
a paz dos meus abraços.
Que não possa esquecer,
a desventura, de que,
nunca jamais, haverá Novembros,
que nos achem amando-nos nas suas ruas.


María García Romero- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

NOVIEMBRE

-Que nadie me mencione aquel salto mortal y tu silueta nítida cercada de ababoles-

Recuerdo,
sobre el gélido aliento de noviembre,
una ruta de flores en tu boca,
un perfume de sol,
una locura,
y mis pies suspendidos por encima del suelo.

Tu juventud tenía un cansancio de cruces,
una súbita urgencia
de vivir y matar,
los más amargos posos de mis labios.
Como un ángel caído, sin nada que perder,
de par en par me abriste la puerta de tu infierno.
Yo te amaba.
Yo te amé.
Yo te amo y bendigo,
el camino secreto de tus pasos.

Perdóname que grite este amor al silencio,
que sólo quede en mí ternura sin destino,
un suicidio en la noche, que devora,
la paz de mis abrazos.
Que no pueda olvidar,
la desventura, de que,
nunca jamás, habrá noviembres,
que nos hallen amándonos por sus calles.


María García Romero- España

sábado, 18 de fevereiro de 2012

INCOMPLETO

INCOMPLETO

Desde menina me acostumei a passear
por ruas solitárias,
às vezes com um livro nas mãos,
outras com a morte.

Acostumei-me a dobrar em duas a noite
e a viver atrás das cortininhas,
ou no som absolutório
dos sinos da igreja.

Noite a noite os meus olhos
se misturavam com a água
e os meus pés subiam às árvores,
em busca de uma nota, um acorde,
um mundo onde poder me refugiar.

Quase por diversão trepava aos telhados
e com o meu gorro branco,
ordenava iluminados trens que assobiavam
sob um céu de geada.

Depois, acendia velas que ocultava
debaixo dos lençóis
para ler os mortos enquanto escutava
os ruídos da rua.

Os gritos de algum bêbado maldizendo,
o tempo das chaves felizes,
a marcha alegre da água rua abaixo,
o riso de alguma moça enamorada,
a música, os beijos,
os passos apressados, a música,
os beijos, o silêncio,
o roce da pele, os beijos.

Desde menina me acostumei
à dor e à renúncia,
aos longos passeios sem ninguém,
a buscar na minha mente a loucura,
a mudez, o luto na palavra.

Fiz brotar sangue de um piano e rezei,
sem êxito, a um deus de ferro.
Minha melhor amiga era uma prostituta
que quis, também sem êxito,
que um ventre abominável,
me cobrisse de ouro.

Mas o meu ouro eram os minutos,
que passava só, meu ouro,
eram as horas em que dançava
no interior de uma jaula, meu ouro,
eram aqueles pequenos esquilos,
em frente aos jardins chineses.

Há um silêncio que me espera
depois de ser a menina
que cresceu nua.

Chegaram as horas finais.
Abro o caixão das chamas.
O habitante dorme na sua esquina,
ignora o dano que deixou na minha nuca,
ignora o horroroso assassinato
que cometeu.

Chegaram as horas finais.
O visitante chegou do Norte,
e em vez de sapatos, traz nos seus pés,
duas ânforas de ferro.

Traz um relógio de papel no pulso
e promessas de açúcar
que as formigas comem.

Arrasta-me,
até esse lugar onde desaparecem
os ouvidos, arrasta-me, sem estridências,
como um elefante procurando
a rota do seu próprio cemitério.

Mas já desde menina,
acostumei-me a passear
por ruas solitárias, às vezes com um livro,
às vezes com a morte,
discretamente,
como quem acaricia as folhas de um livro
incompleto.

E será difícil voltar a esse estado
febril, àquela inexplicável sensação
de plenitude de beijar as folhas de um livro
com forma de soga.

Tenho as janelas fechadas
e olho a luz que se derrama na mesa,
o barro que forma esta desordem,
nas estantes onde morre
e vive a minha vida.

Minhas mãos se afastam do vermelho.
Minhas mãos se fecham.
Não há palácio que se acenda de novo.

Na outra esquina queimo palavras,
folhas, alabastros, plumas
que já não têm tinta, almanaques,
fotos. Destruo o teu nome e o meu.
Elimino o quiçá e o por quê.
As inúteis promessas de sempre,
congelo as frases.

As horas e o desassossego cantam
como pássaros pequenos.

Tenho as cortinas fechadas
e levanto um copo de vinho
enquanto fumo tabaco de baunilha
e brindo por vocês.

Pelos amigos efémeros
e por aqueles que floresceram
enquanto houve fogo.

Pelo que bebeu o meu tempo
enquanto me matava.
Pelo que com palavras de sal
me impediu de acreditar em nada.
Pelo poeta demasiado bêbado de amor
para reescrever, numa nova folha,
uma nova história.
Por aquele que me oculta o amanhecer.
Por aquele que não soube transpor os limites
e ficou do outro lado do palácio das luas.

Agora o visitante e o habitante
dormem juntos na mesma cama,
tiram as botas, se estiram,
bebem da mesma garrafa,
olham o meu retrato e me arrancam os lábios.

Hoje a minha sombra e eu estamos juntas,
celebrando numa formosa praia,
as cinzas que voam e mudam,
do gris ao verde pálido, do verde pálido
ao púrpura enquanto se afoga no mar
todo o meu corpo.

Já faz tanto tempo que o vento não sopra,
que me esqueci de abrir a porta.

Concha González Nieto - España
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

INCOMPLETO

Desde niña me acostumbré a pasear
por calles solitarias,
a veces con un libro en las manos,
otras con la muerte.

Me acostumbré a doblar en dos la noche
y a vivir detrás de los visillos,
o en el sonido absolutorio
de las campanas de la iglesia.

Noche a noche mis ojos
se mezclaban con el agua
y mis pies subían a los árboles,
en busca de una nota, un acorde,
un mundo donde poder refugiarme.

Casi por diversión trepaba a los tejados
y con mi gorro blanco,
ordenaba iluminados trenes que silbaban
bajo un cielo de escarcha.

Después, encendía velas que ocultaba
debajo de las sábanas
para leer a los muertos mientras oía
los ruidos de la calle.

Los gritos de algún borracho maldiciendo,
el tiempo de las llaves felices,
la marcha alegre del agua calle abajo,
la risa de alguna muchacha enamorada,
la música, los besos,
los pasos apresurados, la música,
los besos, el silencio,
el roce de la piel, los besos.

Desde niña me acostumbré
al dolor y a la renuncia,
a los largos paseos sin nadie,
a buscar en mi mente la locura,
la mudez, el luto en la palabra.

Hice brotar sangre de un piano y recé,
sin éxito, a un dios de hierro.
Mi mejor amiga era una prostituta
que quiso, también sin éxito,
que un vientre abominable,
me cubriese de oro.

Pero mi oro eran los minutos,
que pasaba sola, mi oro,
eran las horas que bailaba
en el interior de una jaula, mi oro,
eran aquellas pequeñas ardillas,
frente a los jardines chinos.

Hay un silencio que me espera
después de ser la niña
que creció desnuda.

Han llegado las horas finales.
Abro el cajón de las llamas.
El habitante duerme en su esquina,
ignora el daño que ha dejado en mi nuca,
ignora el horroroso asesinato
que ha cometido.

Han llegado las horas finales.
El visitante ha llegado del norte,
y en lugar de zapatos, lleva en sus pies,
dos ánforas de hierro.
Lleva un reloj de papel en la muñeca
y promesas de azúcar
que se comen las hormigas.

Me arrastra,
hasta ese lugar donde desaparecen
los oídos, me arrastra, sin estridencias,
como un elefante buscando
la ruta de su propio cementerio.

Pero ya desde niña,
me acostumbré a pasear
por calles solitarias, a veces con un libro,
a veces con la muerte,
discretamente,
como quien acaricia las hojas de un libro
incompleto.

Y será difícil volver a ese estado
febril, a aquella inexplicable sensación
de plenitud de besar las hojas de un libro
con forma de soga.

Tengo las ventanas cerradas
y miro la luz que se derrama en la mesa,
el barro que forma este desorden,
en las estanterías donde muere
y vive mi vida.

Mis manos se alejan del rojo.
Mis manos se cierran.
No hay palacio que se encienda de nuevo.

En la otra esquina quemo palabras,
hojas, alabastros, plumas
que ya no tienen tinta, almanaques,
fotos. Destruyo tu nombre y el mío.
Elimino el quizá y el por qué.
Las inútiles promesas de siempre,
congelo las frases.

Las horas y el desasosiego cantan
como pájaros pequeños.

Tengo las cortinas cerradas
y levanto una copa de vino
mientras fumo tabaco de vainilla
y brindo por vosotros.

Por los amigos de efímeros
y por aquéllos que florecieron
mientras hubo fuego.
Por el que se bebió mi tiempo
mientras me mataba.
Por el que con palabras de sal
me impidió creer en nada.
Por el poeta demasiado borracho de amor
para reescribir, en una nueva hoja,
una nueva historia,
Por aquél que me oculta al amanecer.
Por aquél que no supo traspasar los límites
y se quedó al otro lado del palacio de las lunas.

Ahora el visitante y el habitante
duermen juntos en la misma cama,
se quitan las botas, se estiran,
beben de la misma botella,
miran mi retrato y me arrancan los labios.

Hoy mi sombra y yo estamos juntas,
celebrando en una hermosa playa,
las cenizas que vuelan y cambian,
del gris al verde pálido, del verde pálido
al púrpura mientras se ahoga en el mar
todo mi cuerpo.

Hace ya tanto tiempo que el viento no sopla,
que se me ha olvidado abrir la puerta.


Concha González Nieto- España

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

ANSEIO

ANSEIO


Continuas sendo uma fêmea Super Fly.
Gwen Stephani


Estes estranhos acasalamentos em que afinal cada um deseja por seu lado o desassossego que um paga ao outro. Os anos esvaziam as pisadas da paixão em silêncio. Como no riso falso da chuva que alarga o roce dos ombros descascados, um novo nascimento fiduciário. Os cabelos longos dão a volta ao mito das sereias tornadas metade peixe, metade fêmea super fly. Para nós não há, no entanto, interrupção de nenhuma espécie, nenhuma maneira de começo aprazado, de nenhum modo abandono por mútuo acordo. Tão pouco tratamos de recuperar a arqueologia de curto entendimento dos Outros. Não procuramos as tatuagens da mulher no branco cetim da madrugada, nos conformamos com a exsudação do sexo fortuito na escadinha de incêndios do seu sutiã. Falta de estilo na perda da roupa velha da auto-estima em caixas, onde alguém rascunhou teu nome, como se obscurecesse o álcool da solidão no colchão de lã macia, na mancha aberta da tua virilha. O passo sigiloso sucede na palavra apagada. E depois de tantos anos nem sequer é já uma espécie de chuva, um jeito de braços em cruz, algo parecido a um gritinho afogado que quereria significar: Não posso aguentar sem ti, por mais que a condenação dos restolhos e olhos de sementes sobre o vidro. Nunca parecemos corpos frágeis nem esplendorosos. Não possuíamos a neve, o silabário de fôlegos, sofrimento e rotina. Nem elegias dessangradas em cada golpe nem esperávamos a doçura última da despedida. Nunca o nosso olhar foi a quietude acesa pela música azul no quarto, uma ascensão malograda através dos muros de madeira e das gretas do teto, a ausência miúda da lâmpada que trauteia. E não é isso em absoluto nesta cidade de insónias, uma improvisada chuva de inverno entre nós. Nenhuma história de sombras indecifráveis, os rostos que se querem para nomear a nostalgia. Agora só somos duas vozes que minguam no vazio, até o ponto em que o que aqui se revela, é precisamente o que aqui se deixa.


Pere Bessó- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

ANHELO


Sigues siendo una hembra Super Fly.
Gwen Stephani


Estos extraños acoplamientos en que al cabo cada quien desea por su lado el escaso desasosiego que uno paga al otro. Los años vacían las huellas de la querencia en silencio. Como en la risa falsa de la lluvia que ensancha el roce de los hombros repelados, un nuevo nacimiento fiduciario. Los cabellos largos dan la vuelta al mito de las sirenas vueltas mitad pez, mitad hembra super fly. Para nosotros no hay, sin embargo, interrupción de ninguna clase, manera alguna de comienzo aplazado, en modo alguno abandono por mutuo acuerdo. Tampoco tratamos de recuperar la arqueología de corto entendimiento de los Otros. No buscamos los tatuajes de la mujer en el blanco satén de la madrugada, nos conformamos con la exudación del sexo fortuito en la escalerilla de incendios de su sujetador. Falta de estilo en la pérdida de la ropa vieja de la autoestima en cajas, en donde alguien ha garabateado tu nombre, como si obscureciera el alcohol de la soledad en el colchón de lana borde, en la mancha abierta de tu ingle. El paso sigiloso sucede en la palabra borrada. Y después de tantos años ni siquiera es ya una especie de lluvia, una suerte de brazos en cruz, algo parecido a un gritito ahogado que querría significar: No puedo aguantar sin ti, por más que la condena de los rastrojos y ojos de semillas sobre el vidrio. Nunca parecimos cuerpos frágiles ni esplendorosos. No poseíamos la nieve, el silabario de jadeos, sufrimiento, rutina. Ni elegías desangradas en cada golpe ni esperábamos el dulzor último de la despedida. Nunca nuestra mirada fue la quietud encendida por la música azul en la habitación, una ascensión azarosa a través de los muros de madera y de las grietas del techo, la ausencia menuda de la bombilla que tararea. Y no es eso en absoluto en esta ciudad de insomnios, una improvisada lluvia de invierno entre nosotros. Ninguna historia de sombras indescifrables, los rostros que se quieren para nombrar la nostalgia. Ahora sólo somos dos voces que menguan en el vacío, hasta el punto que lo que acá se revela, es precisamente lo que acá se deja.


Pere Bessó- España

CEMITÉRIO DE PÁSSAROS


CEMITÉRIO DE PÁSSAROS

Amanhecem
voos
de pássaros; aqueles, os mesmos que aninharam
anos de calças curtas e vestidos com laços
perfumados
das missas de domingo, torres
de campanário,
os buracos de gude no jogo de berlindes;
aqueles
que alçaram nos bicos
a extenuada solidão
da memória
da infância e me pergunto
onde abandonaram suas asas o ar,
em que rincão morreram
e deixaram o último fôlego tremendo entre as plumas
da breve primavera.

Retornam
voos
de pássaros – os que cruzaram atrevidos céus
de juventude – à estrema nostalgia da lembrança,
sóis de verões,
corpos abraçados
e amarelo mel nas colmeias
dos beijos. Em que lugar
morreram? Quem os viu pela última vez?
Aonde foram?

Voaram
os pássaros
e multiplicaram
o clamor dos seus cantos nos ninhos de outono; mas onde
deixaram
o bater frenético das suas asas? Onde
morreram todos?

E olho
hoje
os pássaros
em adejos ruidosos ao meu redor; talvez – me digo –
aqueles, os mesmos que me digam
a que lugar
conduz
o leve último voo
dos dias
de inverno.


Julio G. Alonso- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria
Nota: Poema publicado na Antologia de Poemas Alaira (Janeiro, 2008)


*****

CEMENTERIO DE PÁJAROS

Amanecen
revuelos
de pájaros; aquellos, los mismos que anidaron
años de pantalones cortos y vestidos con lazos
perfumados
de las misas de domingo, torres
de campanario,
hoyos de guá en juegos de canicas;
aquellos
que alzaron en los picos
la extenuada soledad
de la memoria
de la infancia y me pregunto
dónde abandonaron sus alas el aire,
en qué rincón murieron
y dejaron el último latido temblando entre las plumas
de la breve primavera.

Retornan
vuelos
de pájaros –los que cruzaron atrevidos cielos
de juventud-
a la extremada nostalgia del recuerdo,
soles de veranos,
cuerpos abrazados
y amarilla miel en las colmenas
de los besos. ¿Y en qué lugar
murieron? ¿Quién los vio la última vez?
¿A dónde fueron?

Volaron
los pájaros
y multiplicaron
el clamor de sus cantos en los nidos de otoño; ¿pero dónde
dejaron
el batir frenético de sus alas? ¿Dónde
murieron todos?

Y miro
hoy
los pájaros
en revuelos ruidosos en mi torno; tal vez –me digo-
aquellos, los mismos que me digan
a qué lugar
conduce
el leve último vuelo
de los días
de invierno.


Julio G. Alonso- España
Nota.-Poema publicado en la Antología de Poemas Alaire (enero, 2008)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

VOLTAR



VOLTAR

É grato regressar.
Sempre é grato voltar a esses lugares brancos
que sente a orfandade
do fermento que anseia
cada estação que passa como ave migratória.

É grato recorrer
as calçadas e as praças
que uma ressaca inunda com intimismo fértil,
resgatando segredos
que já não são exactos,
oscilando entre a espuma que se agita,
que muda, que se dobra,
em uma deserção que vai embora
e chega até à calma imóvel da contemplação.

É grato reviver
esse mistério, essa transformação involuntária
que sucede na alma
quando se torna surda e temerária,
essa lembrança atada a uma antiga sentença
que foi lugar de encontro,
centelha e paraíso
de outro instante que salvas dos instantes mortos.

Torna-se grato o cheiro,
esse sabor a olvido que a memória recorda,
esse sentir o júbilo da vida
que na desdita pugna por ser certa,
esse gozar ingrato que encurrala e surpreende
sem comiseração.

E nessa gratidão regresso, volto,
recorro esses rincões iluminados
por uma luz distinta,
igual a um fogo novo
que busca nas cidades
suas cinzas prensadas nos ângulos mortos
de esquinas permanentes,
revivo mutações
de cada primavera e cada outono,
aspiro a intempérie da rosa seccionada
como pálida oferta
que agónica se encolhe entre as mãos,
saboreio as lágrimas
que a folharada põe
junto ao frio do tempo,
aceitando o azar perecedouro.

Porque voltar tem algo
de esse negar a sombra consumada,
de esse espantar os gestos
onde aninha o costume
para reconhecer a irrealidade
que à força de a espantar nos acompanha
em pátios escondidos e transidos,
longe já de lugares
que já não são iguais
àqueles em que foi grato viver.


Julián Borao- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria


*****

VOLVER

Es grato regresar.
Siempre es grato volver a los lugares blancos
que siente la orfandad
del fermento que añora
cada estación que pasa como ave migratoria.

Es grato recorrer
las calles y las plazas
que la resaca inunda con intimismo fértil,
rescatando secretos
que ya no son exactos,
temblando entre la espuma que se agita,
que cambia, que se pliega,
en una deserción que se va yendo
y llega hasta la calma inmóvil de la contemplación.

Es grato revivir
ese misterio, esa transformación involuntaria
que sucede en el alma
mientras se vuelve sorda y temeraria,
ese recuerdo atado a una antigua condena
que fue lugar de encuentro,
destello y paraíso
de otro instante al que salvas de los instantes muertos.

Se hace grato ese olor,
ese sabor a olvido que la memoria evoca,
ese sentir la dicha de la vida
que en la desdicha pugna por ser cierta,
ese gozar ingrato que acorrala y sorprende
sin conmiseración.

Y en esa gratitud regreso, vuelvo,
recorro los rincones alumbrados
por una luz distinta,
igual que un fuego nuevo
que busca en las ciudades
sus cenizas prensadas en los ángulos muertos
de esquinas permanentes,
revivo mutaciones
de cada primavera y cada otoño,
aspiro la intemperie de la rosa cortada
como pálida ofrenda
que agónica se encoge entre las manos,
saboreo las lágrimas
que la hojarasca pone
junto al frío del tiempo,
aceptando su azar perecedero.

Porque volver tiene algo
de ese negar la sombra consumada,
de ese espantar los gestos
que anidan la costumbre
para reconocer la irrealidad
que a fuerza de ahuyentar nos acompaña
en patios escondidos y ateridos,
lejos ya de lugares
que ya no son iguales
a aquellos en que fue grato vivir.


Julián Borao- España

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A MULHER QUE CHORA COM UN SÓ OLHO






A MULHER QUE CHORA COM UM SÓ OLHO

Na pálpebra aberta da noite habitam as ausências mortas.
Com cálidas lágrimas negras, aviva as estrelas espalhadas num céu frio.
Com o manto da memória abriga seus nomes do nada, às cinzas transforma em fogo e os silêncios calam.


Mercedes Ridocci- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria





*****

LA MUJER QUE LLORA POR UN SOLO OJO

En el párpado abierto de la noche habitan las ausencias muertas.
Con cálidas lágrimas negras, aviva las estrellas esparcidas en un cielo frío.
Con el manto de la memoria abriga sus nombres de la nada, las cenizas las torna fuego y los silencios callan.


Mercedes Ridocci- España

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

(POR CAUSA DA CHUVA)




(POR CAUSA DA CHUVA)

Porque chove,
te escrevo.
Tão só por isso...
Por causa das dúvidas...

Porque a chuva vem sempre
com o pulso inocente
da nostalgia.

Nos beija, limpamente,
a frente resignada
da nossa esperança.

Mas, também, nos vence,
a chuva,
delicada, nos rende,
nos prostra
o olhar
por encharcadas e escuras
calçadas conhecidas
da nossa apatia.

Por isso,
te escrevo.
Porque chove.
Por causa das dúvidas...

Porque a chuva é traidora.
Assusta.

A chuva é um lobo
em pele de cordeiro
que no meio da calma
uiva
as dúvidas.

E depois de ir-se,
rancorosa,
nos deixa
humidades frias
como de suspeita.

Por isso, te escrevo.
Porque chove.
Só por isso.


Por causa da chuva...


Ritxi Póo- Espanha
Tradução ao português: Ana Muela Sopeña
Revisão: Tania Alegria



*****

(POR SI LA LLUVIA)

Porque llueve,
te escribo.
Tan solo por eso…
Por si las dudas…

Porque la lluvia viene siempre
con el pulso inocente
de la nostalgia.

Nos besa, limpiamente,
la frente resignada
de nuestra esperanza.

Pero, también, nos vence,
la lluvia,
delicada, nos rinde,
nos postra
la mirada
por encharcadas y oscuras
aceras conocidas
de nuestra desgana.

Por eso,
te escribo.
Porque llueve.
Por si las dudas…

Porque la lluvia es traidora.
Asusta.

La lluvia es un lobo
con piel de cordero
que en mitad de la calma
aúlla
las dudas.

Y tras marcharse,
rencorosa,
nos deja
humedades frías
como de sospecha.

Por eso, te escribo.
Porque llueve.
Solo por eso.

Por si la lluvia…


Ritxi Póo- España

domingo, 12 de fevereiro de 2012

DIZEM




DIZEM

Dizem que as relembranças são sementes
que florescem na terra do que já não existe,
que necessitam tempo, que se hidratam
com a humidade da melancolia.

Dizem que são tardias, que maduram
com a carícia de outro sol mais cálido,
que se agarram ao peito
quando o corpo
tropeça no buraco de um minuto vazio,
que perfumam ao triste
e que nutrem o homem que rói as suas unhas.

Dizem que a memória
só espera o sabor que a restitua
a esses lugares onde nunca esteve,
que não pode mover-se
quando suporta o peso das coisas que acontecem.

Eu sei, como tu sabes, que tudo é relativo,
que o argumento cai
como o orgulho que atravessa a ponte
da nossa solidão.

Porque recordo o beijo às sete horas
com a profundidade do que sente
caladamente longe.

Y já são sete e cinco…
.......................................e não te foste.


Luis Oroz- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria





*****



DICEN

Dicen que los recuerdos son semillas
que crecen en la tierra de lo que ya no existe,
que necesitan tiempo, que se hidratan
con la humedad de la melancolía.

Dicen que son tardías, que maduran
con la caricia de otro sol más cálido,
que se agarran al pecho
cuando el cuerpo
se tropieza en el hueco de un minuto vacío,
que perfuman al triste
y que nutren al hombre que se muerde las uñas.

Dicen que la memoria
solo espera el sabor que la devuelva
a ese lugar en donde nunca estuvo,
que no puede moverse
cuando sujeta el peso de las cosas que pasan.

Yo sé, como tú sabes, que todo es relativo,
que el argumento cae
como el orgullo que atraviesa el puente
de nuestra soledad.

Porque recuerdo el beso de las 7
con la profundidad del que se siente
calladamente lejos.

Y son las siete y cinco…
..........................................y no te has ido.


Luis Oroz- España

A SERPENTE




A SERPENTE

Eu represento o extermínio.
Em mim se espessam,
já irreparáveis,
todos os dias que não foram.
Estou chegando à certeza de que o mundo não existe para ninguém.
Tens gestos no alento ou no desejo,
mas tudo tende a um final curvado,
onde o infinito se abre e nos agarra como um lixo
enquanto um magma em ti se esfria lento
e fecunda a terra
– uma matéria,
um passado realmente consistente –.

A paisagem que olhamos se torna sentimental;
a vida indigente esgrimindo os seus delírios,
o copo de suor em todo o tempo compartido.
Que aterradora, de repente, a peremptória estrada.
A memória se eleva como um sangue coagulado,
esse despojo
dos desígnios marcados.
Um lastro de negruras irredutíveis
se deslizam numa névoa
que se parece à melancolia,
porque ali brotam os sonhos da emoção
porque a sulcam barcos imaginários
em cânticos que sonham sob as águas.

Cada lei testemunha com obstinada (declinada) certeza.
O olhar extenso e esbranquiçado como uma açoteia longa,
branca, que se nutre de um Sol perpendicular.
Os lábios sangram sobre outros desesperados lábios;
dois leitos de açúcar surpreendidos no instante do creme;
dois mundos pendulares cujas centelhas têm a magnitude da vida.

Há um hermético animal que saqueia a tua pele;
a serpente daquele labirinto de impureza.


José Juan M. Ferreiro- Espanha

Tradução al portugués: Tania Alegria


*****

LA SERPIENTE

Yo represento el exterminio.
En mí, se espesan,
ya irreparables,
todos los días que no han sido.
Estoy llegando a la certeza de que el mundo no existe para nadie.
Tienes gestos en el aliento, o en el deseo,
pero todo tiende a un final curvado,
donde el infinito se abre y nos atrapa como un desperdicio
mientras un magma en ti enfría lento
y fecunda la tierra
−una materia,
un pasado realmente consistente−.

El paisaje que miramos se hace sentimental;
la vida indigente esgrimiendo sus delirios,
el vaso de sudor en todo tiempo compartido.
Qué aterradora, de repente, la perentoria ruta.
La memoria se alza como una sangre coagulada,
ese despojo
de los designios aplazados.
Un lastre de negruras irreductibles
se deslizan en una niebla
que se parece a la melancolía,
porque allí brotan los ensueños de la emoción
porque la surcan barcos imaginarios
en cánticos que suenan bajo el aguas.

Cada ley me atestigua con obstinada (declinada) certidumbre.
La mirada extensa y blanquecina como una azotea larga,
blanca, que se nutre de un Sol perpendicular.
Los labios se desangran sobre otros desesperados labios;
dos lechos de azúcar sorprendidos en el instante de la crema;
dos mundos pendulares cuyos destellos tienen la magnitud de la vida.

Hay un hermético animal que saquea tu piel;
la serpiente de aquel laberinto de impureza.


José Juan M. Ferreiro

sábado, 11 de fevereiro de 2012

UM POEMA SEM TÍTULO DE VÍKTOR GÓMEZ




UM POEMA SEM TÍTULO DE VÍKTOR GÓMEZ

A luz cala.
Parece que haverá boa colheita.
Miguel Ángel Curiel

(Intempestivas conversações nocturnas em Jerez)


Um violino roto, dizia León Felipe.
Um cavalo azul, George Trakl.
Um estranho animal, invocava Blanca Varela.

Eu não sei,
nestas águas transparentes,
nesta ausência de barro,
como não beber
o veneno da sua claridade sem
morrer ao bem
que ficou brincando
que fica enlameando
– como minha infância no seu quício –
uma margem de asnos insones.


Porque há águas limpas
que são mortais
mas nenhuma criança morreu
brincando na margem barrenta.

Eu não sei como explicá-lo.


Víktor Gómez- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria
De Perfeccione lo inútil a lo inútil
(Poemário inconcluso)


*****

UN POEMA SIN TÍTULO DE VÍKTOR GÓMEZ

La luz calla.
Parece que habrá buena cosecha.
Miguel Ángel Curiel

(Intempestivas conversaciones nocturnas en Jerez)


Un violín roto, decía León Felipe.
Un caballo azul, George Trakl.
Un extraño animal, invocaba Blanca Varela.

Yo no sé,
en estas aguas transparentes,
en esta ausencia de barro,
cómo no beber
el veneno de su claridad sin
morir al bien
que se quedó jugando,
que se queda embarrando
−como mi infancia en su quicio –
una orilla de asnos insomnes.

Porque hay aguas limpias
que son mortales
pero ningún niño se murió
jugando en la orilla barrosa.

Yo no sé como explicarlo.


Víktor Gómez- España
De Perfeccione lo inútil a lo inútil
(Poemario inconcluso)

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

E SORRI






E SORRI

Ela sente a cidade
como uma experiência mística.
As ruas e as praças
se transformam em mundos de beleza,
para cavalgar sob a chuva
que inunda a sua ilusão com sonhos nítidos.

Seu cabelo ondula sob o céu
e sorri
aos edifícios da urbe.

Adora sentir a liberdade
em calçadas com gatos.

Contempla as estátuas com geada
e sabe
que no seu interior
habitam corações que sentem em segredo.

E segue caminhando
pela cidade anónima,
em gotas das nuvens…

Adora os sons que provêm
dos mostruários das lojas.
Autocarros repletos
com rostos que comungam com desenhos
de utopias adormecidas.

Divisa manequins com suas vestes
que nunca comprará,
apesar de que isso lhe é indiferente.

Explora o sol nascente em ruas e jardins,
pela cidade deserta.

Sabe que cada dia
é uma aventura
sem limites nem marcas sob a vertigem.

Abre-se às correntes submarinas
que habitam nas pedras das casas
ou nas madeiras dos bancos…

Flui como se fosse já invisível
em microscópicas partículas
que os telhados enigmáticos
conservam sem palavras.

Contagia,
através do seu olhar imperceptível,
a esperança de outro mundo,
para sonhar despida, sem as máscaras,
com relações sem disfarces.

Abandona suas pisadas em grandes avenidas
e contempla os carros,
o tráfego, a música
desta cidade que avança para o nada.

De súbito
observa que há grupos de pessoas
que parecem felizes e contentes.

Pode ser uma miragem
ou talvez seja verdade…

E assume como um pêndulo
a existência de neve,
na perplexidade de abarca o todo
na consciência primitiva
de um universo etéreo e conhecido.

Ela
desce pelas ladeiras
da memória atávica, tão doce,
e deixa com o musgo
e nas ramas das árvores
com suas luzes azuis
as lembranças das tardes na magia.

Eleva-se aos cumes
de lugares que ainda não se definem
na cartografia das suas noites.

E prossegue seu rumo até os vértices
das esferas suaves do azar…


Ana Muela Sopeña- Espanha


Tradução ao português: Tania Alegria


*****

Y SONRÍE

Ella siente la ciudad
como una experiencia mística.
Las calles y las plazas
se transforman en mundos de belleza,
para cabalgar bajo la lluvia
que inunda su ilusión con sueños nítidos.

Su cabello ondea bajo el cielo
y sonríe
a los edificios de la urbe.

Adora sentir la libertad
en aceras con gatos.

Contempla las estatuas con escarcha
y sabe
que en su interior
habitan corazones que sienten en secreto.

Y sigue caminando
por la ciudad anónima,
en gotas de las nubes...

Adora los sonidos que provienen
de los escaparates de las tiendas.
Autobuses repletos
con rostros que comulgan con dibujos
de utopías dormidas.

Divisa maniquíes con sus prendas
que nunca comprará,
aunque eso le da igual.

Explora el sol naciente en calles y jardines,
por la ciudad desierta.

Sabe que cada día
es una aventura
sin límites ni marcas bajo el vértigo.

Se abre a las corrientes submarinas
que habitan en las piedras de las casas
o en las maderas de los bancos...

Fluye como si fuera ya invisible
en microscópicas partículas
que los tejados enigmáticos
conservan sin palabras.

Contagia,
a través de su mirada imperceptible,
la esperanza de otro mundo,
para soñar desnuda, sin las máscaras,
con relaciones sin disfraces.

Abandona sus huellas en grandes avenidas
y contempla los coches,
el tráfico, la música
de esta ciudad que avanza hacia la nada.

De pronto,
observa cómo hay grupos de personas
que parecen felices y contentas.

Puede que sea un espejismo
o quizás sea cierto...

Y asume como un péndulo
la existencia de nieve,
en la perplejidad que abarca el todo
en la conciencia primitiva
de un universo etéreo y conocido.

Ella
desciende por las rampas
de la memoria atávica, tan dulce,
y deja con el musgo
y en ramas de los árboles
con sus luces azules
los recuerdos de tardes en la magia.

Asciende hacia las cumbres
de lugares que aún no se definen
en la cartografía de sus noches.

Y prosigue su rumbo hacia los vórtices
de las esferas suaves del azar...


Ana Muela Sopeña- España

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O ESPLENDOR DO DESAMPARO




O ESPLENDOR DO DESAMPARO

A colherinha de café
– única companhia –
remove a borra
da tristeza.

Fechaste a porta e
foi-se a manhã.
O quadro da casa
ficou fixo, ladeado
na sua própria solidão.

Já estou fora de ti,
expulsado, perdido,
esquecido dos teus olhos.

A borra do café
augura, na sua noite
de amor sombrio,
o esplendor do desamparo.


Perfecto Herrera- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria





*****

EL ESPLENDOR DEL DESAMPARO

La cucharilla de café
- única compañía-
remueve el poso
de la tristeza.

Cerraste la puerta y
Se fue la mañana.
El cuadro de la casa
Se quedó fijo, ladeado
En su propia soledad.

Ya estoy fuera de ti,
Expulsado, perdido,
Olvidado de tus ojos.

El poso del café
Augura, en su noche
De amor sombrío,
El esplendor del desamparo.


Perfecto Herrera- España

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

QUANDO






QUANDO

Quisera estar aí quando é Dezembro
e chove sobre o pátio;

quando nas madrugadas
conversas com as árvores,
contando-lhes insónias e agonias,
e estreias alvoradas redentoras
para esses dias que nasceram mortos;

quando a luz de uma lâmpada de rua
desenha a tua sombra nas fachadas
e a noite debruçada nos balcões
cuida teus passos;

quando o teu cão profana aquele altar
onde cego, imortal, morava Borges
e te enche de ira e aflição
essa imprevista forma de penúria.

Quisera estar aí quando estás louco
quando me queres tanto
quando às vezes me odeias,
e laceras-me as costas entre credos,
e entrelaças teu nome em meus enigmas.


Tania Alegria- Brasil


*****

CUANDO

Quisiera estar ahí
cuando es diciembre y lunes,
y llueve sobre el patio;

cuando en las madrugadas
conversas con los árboles
por contarles insomnios y agonías,
y estrenas alboradas redentoras
en esos días que nacieron muertos.

cuando la tenue luz de una farola
desdibuja tu sombra en las ochavas
y la noche asomada a los portales
cuida tus pasos;

cuando tu perro, a guisa de filósofo,
profana los altares
donde ciego, inmortal, vivía Borges
y te llena de ira y desconsuelo
esa imprevista forma de penuria;

Quisiera estar ahí cuando estás loco,
cuando me quieres tanto,
cuando a veces me odias,
y latigas mi espalda entre dos credos,
y entrelazas tu nombre en mis enigmas.


Tania Alegria- Brasil

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

WISLAWA SZYMBORSKA - AMOR À PRIMEIRA VISTA




AMOR À PRIMEIRA VISTA

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.

Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?

Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.

Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.

Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.

Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?

Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.

Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.


Wislawa Szymborska- Polônia
Tradução ao português: Julio Sousa Gomes

*****

Miłość od pierwszego wejrzenia

Oboje są przekonani,
że połączyło ich uczucie nagłe.
Piękna jest taka pewność,
ale niepewność piękniejsza.

Sądzą, że skoro nie znali się wcześniej,
nic między nimi nigdy się nie działo,
A co na to ulice, schody, korytarze,
na których mogli się od dawna mijać?

Chciałabym ich zapytać,
czy nie pamietają -
może w drzwiach obrotowych
kiedyś twarzą w twarz?
jakieś "przepraszam" w ścisku?
głos "pomyłka" w słuchawce?
- ale znam ich odpowiedź.
Nie, nie pamietają.

Bardzo by ich zdziwiło,
że od dłuższego już czasu
bawił się nimi przypadek.

Jeszcze nie całkiem gotów
zamienić się dla nich w los,
zbliżał ich i oddalał,
zabiegał im drogę
i tłumiąc chichot
odskakiwał w bok.

Były znaki, sygnały,
cóż z tego, że nieczytelne.
Może trzy lata temu
albo w zeszły wtorek
pewien listek przefrunął
z ramienia na ramię?
Było coś zgubionego i podniesionego.
Kto wie, czy już nie piłka
w zaroślach dzieciństwa?

Były klamki i dzwonki,
na których zawczasu
dotyk kładł się na dotyk.
Walizki obok siebie w przechowalni.
Był może pewnej nocy jednakowy sen,
natychmiast po zbudzeniu zamazany.

Każdy przecież początek
to tylko ciąg dalszy,
a księga zdarzeń
zawsze otwarta w połowie.


Wislawa Szymborska- Polonia



*****


AMOR A PRIMERA VISTA

Ambos están convencidos
de que los ha unido un sentimiento repentino.
Es hermosa esa seguridad,
pero la inseguridad es más hermosa.

Imaginan que como antes no se conocían
no había sucedido nada entre ellos.
Pero ¿qué decir de las calles, las escaleras, los pasillos
en los que hace tiempo podrían haberse cruzado?

Me gustaría preguntarles
si no recuerdan
-quizá un encuentro frente a frente
alguna vez en una puerta giratoria,
o algún "lo siento"
o el sonido de "se ha equivocado" en el teléfono-,
pero conozco su respuesta.
No recuerdan.

Se sorprenderían
de saber que ya hace mucho tiempo
que la casualidad juega con ellos,
una casualidad no del todo preparada
para convertirse en su destino,
que los acercaba y alejaba,
que se interponía en su camino
y que conteniendo la risa
se apartaba a un lado.

Hubo signos, señales,
pero qué hacer si no eran comprensibles.
¿No habrá revoloteado
una hoja de un hombro a otro
hace tres años
o incluso el último martes?

Hubo algo perdido y encontrado.
Quién sabe si alguna pelota
en los matorrales de la infancia.

Hubo picaportes y timbres
en los que un tacto
se sobrepuso a otro tacto.
Maletas, una junto a otra, en una consigna.
Quizá una cierta noche el mismo sueño
desaparecido inmediatamente después de despertar.

Todo principio
no es mas que una continuación,
y el libro de los acontecimientos
se encuentra siempre abierto a la mitad.



Wislawa Szymborska- Polonia
Traducción al español: Abel A. Murcia

SOLIDÃO DE PLUMAS






SOLIDÃO DE PLUMAS

Eram mastros os barcos dentes distantes em cúspide,
e eu, sonhadora de um resgate pirata entre almofadas de seda,
ninho de cocos leite doce habitando um sonho azul na minha boca,
ele não viria.

(Por acaso o vi – dono do beijo – agitando uma estrela?)

Eram as gemas dos meus dedos tacteando plumas sem pulsações.
Caixas almejadas de aros em lua minguante.
Edredons abertos meu rosto afundado neles,
ele não viria.


Rosa Buk- Argentina
Tradução ao português: Tania Alegria








*****

SOLEDAD DE PLUMAS

Eran mástiles los barcos dientes lejanos en cúspide,
y yo, soñadora de un rescate pirata entre almohadones de seda,
nido de cocos leche dulce habitando un sueño azul en mi boca,
él no vendría.

(¿Acaso yo lo vi -dueño del beso- agitando una estrella?)

Eran las yemas de mis dedos tactando plumas sin latidos.
Cajas añoradas de cellos en luna menguante.
Edredones abiertos mi rostro hundido en ellos,
él no vendría.


Rosa Buk- Argentina

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

NADA ACONTECE DUAS VEZES




NADA ACONTECE DUAS VEZES

Nic dwa razy*
à Wislawa Szymborska



Tua asa em meu jardim
chega como se fosse uma pluma do Éden
paro, observo…

ela vem úmida
ela vem com sal
corro à piscina
vejo o banho do pássaro
olho à gaiola
ele está lá

enfim,
tudo em seus contornos
olho ao céu
a tempo de perceber um arco-íris em luz…


Carmen Silvia Presotto- Brasil


*Nada acontece duas vezes
Um poema de Wislawa Szymborska


*****



NADA SUCEDE DOS VECES

Nic dwa razy*
A Wislawa Szymborska



Tu ala en mi jardín
llega como si fuese una pluma del Edén
me detengo, observo…

ella viene húmeda
ella viene con sal
corro a la piscina
veo el baño del pájaro
miro la jaula
él está allá

al final,
todo en sus contornos
miro al cielo
a tiempo de percibir un arcoíris en la luz…


Carmen Silvia Presotto- Brasil
Traducción al español: Ana Muela Sopeña


*Nic dwa razy:
Nada sucede dos veces
Es el título en polaco de un poema de Wislawa Szymborska

PEQUENA ALUCINAÇÃO









PEQUENA ALUCINAÇÃO

I

Nas coisas pequenas te procurava,
escorpião da margem.
Soubeste morder
meus lábios
meus sapatos
até encher-me de eco.
No diminuto recolhia
montinhos de chá
para tanto tédio.
Olhava as tuas mãos
não chegavas para mais
se estendiam para fazer-te crescer na sombra
mas era ínfima a pegada na neve
diminuta a cavidade
tua boca:
escura alverca para o jogo.


II

– Abre a janela à árvore.
Mas sem árvore.
Arranquei cascas de uma mesa
e ardeu a casa.
– Abre a janela.
Mas não havia espaço para abrir.
No centro o musgo eléctrico nos envolvia o sexo
de pequenas alices que bebem água suja do banho
e não podem vomitar.


III

Ainda rego flores de papel no sótão
e me escondo fazendo ruído,
para que não venhas.
Espanto as moscas do espelho,
e nas coisas pequenas sigo buscando.

Já não recordo o buraco que fiz na parede
com minhas unhas postiças.


María García Zambrano- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria






*****

PEQUEÑA ALUCINACIÓN

I

En lo pequeño te buscaba,
escorpión de la orilla.
Has sabido morder
mi labio
mis zapatos
hasta llenarme de eco.
En lo diminuto recogía
montoncitos de té
para tanta desgana.
Te miraba las manos
no llegabas a más
se extendían para hacerte crecer en la sombra
pero era ínfima la huella en la nieve
diminuta la cavidad
tu boca:
oscura alberca donde el juego.


II

– Abre la ventana al árbol.
Pero sin árbol.
Arranqué cortezas de una mesa
y ardió la casa.
– Abre la ventana.
Pero no había espacio para abrir.
En el centro el musgo eléctrico nos envolvía el sexo
de pequeñas alicias que beben agua sucia del baño
y no pueden vomitar.


III

Todavía riego flores de papel en el sótano
y me escondo haciendo ruido,
para que no vengas.
Espanto las moscas del espejo,
y en lo pequeño sigo buscando.

Ya no recuerdo el agujero que hice en la pared
con mis uñas postizas.


María García Zambrano- España

domingo, 5 de fevereiro de 2012

ESTA QUINTA-FEIRA



ESTA QUINTA-FEIRA

Um poema de Manuel Alcántara, traduzido
em homenagem ao Poeta Pere Bessó.


Esta quinta à mercê da tua boca.
Cuida-a como um parque a uma criança,
como cuida o outono cada folha
e lhe procura o ar que é necessário
para que se reúna com as outras.

Olha esta quinta. Não o sabe. Olha-a
aproximar-se a nós por entre as sombras
e ocupar a cidade como exército
que não pensasse nunca na derrota.
Será esta quinta em tudo. De passagem
mas querendo viver das luzes próprias.
Entrará no escritório de manhã,
ao meio-dia contará as horas
e ficará ao norte dessas cartas
que desde que se escrevem são remotas.
Olha como ela chega até nós dois:
veste de azul e heranças sigilosas,
fixa o seu número e a sua lua,
o tempo sendo quinta nessas coisas!

Cuida-o tu que podes, não permitas
que o dia cumpra um ano na memória.
Olha como se chega até à janela,
não se sabe à mercê da tua boca.

Para passar um dia com nós dois
esta quinta saiu das suas sombras.


Manuel Alcántara- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria





*****

ESTE JUEVES

Este jueves depende de tu boca.
Debes cuidarlo igual que un parque a un niño,
como cuida el otoño cada hoja
y le procura el aire necesario
para que se reúna con las otras.

Mira este jueves. No lo sabe. Míralo
acercarse a nosotros entre sombras.
y ocupar la ciudad como un ejército
que no pensara nunca en su derrota.
Será jueves en todo. Está de paso
pero quiere vivir de luces propias.
Entrará en la oficina de mañana,
a mediodía contará sus horas
y se quedará al norte de las cartas
que desde que se escriben son remotas.
Mira cómo se acerca hasta nosotros:
viste de azul y herencias sigilosas,
establece su número y su luna
¡el tiempo siendo jueves en las cosas!

Cuídalo tú que puedes, no le dejes
que tal día haga un año en la memoria.
Mira cómo se acerca a la ventana
sin saber que depende de tu boca.

Para pasar un día con nosotros
ha salido este jueves de sus sombras.


Manuel Alcántara- España

sábado, 4 de fevereiro de 2012

TEMPO DE AFONIAS






TEMPO DE AFONIAS

É tempo de navegar por zonas em declive, e não, precisamente,
na lona horizontal da planície, impregnada de respirações
condensadas. Vemos o acontecer do ar, detido
na transpiração de moscardos, açores à espera
do dia seguinte para embriagarem-se de cinza.
A isso somamos a lava diária dos cadáveres, soterrados
ou à intempérie, alienados por tanta mão de folharada.
A folhagem é sinistra à luz de cada transeunte: a intuição
fez-se necessária para transpirar essa câmara ardente
em que o alento se afoga diante de um amanhecer de névoa,
sem mais lucidez além do velho discurso da fuligem.

(Com todo este contubérnio, conspirações e transacções,
não podemos, um e outro, encontrar a nossa própria habitação:
não é só a traça que permeia a asa, é que a tortura
nos vem de todas as direcções, arrasa com a alma,
penetra irremediavelmente no corpo,
tem plenas faculdades para sucumbir no nosso território;
e assim, em sobressaltos, devo pensar na mansão do teu púbis;
sorrir por outro lado à paisagem desbocada, lançar-me,
precipitar-me no desvario do esperma.)

Não há cidade que escape a este flagelo. – Livramos a sombra
do pavimento e a encruzilhada, morrem o ouvido e o olfacto.
O porvir nos assedia com fome obstinada, espectros
que mordem espírito e razão, – a palavra tem rosto de lã,
incertezas parecidas ao infinito da noite,
a angústia do desamor que habita o mundo. Esta afonia,
é parte das escarpas que nos aventa a noite
com seus perfis de loucura.

(Um dia talvez não seja necessário um incenso atrás da porta,
nem haja que invocar almas puras; a sede supõe sons novos
que girem no imaginário da garganta,
nessa ternura desconhecida do teu umbigo, meu calcanhar de Aquiles
o tacto, vidência de outra janela na bifurcação do caminho.
O alento é estranho quando te acabas em marejadas,
quando somos açoitados, já não pela violência ecuménica,
mas pelo delírio da ciência do orgasmo.)

Jamais a democracia teve um preço tão alto: pagamos os centímetros
de liberdade que temos, com esse abandono quotidiano da cave
sombria e o funil da noite nos ecos;
em cada penúria, a sombra do tédio, o pátio roto dos sentidos,
o sonho a ponto de parir novos objectos, novos exteriores
para este abismo, onde é costume purificar os esqueletos
ou convertê-los em simples estatísticas para os anuários…


André Cruchaga- El Salvador


Tradução ao português: Tania Alegria


*****

TIEMPO DE AFONÍAS

Es tiempo de navegar por zonas en declive, y no, precisamente,
en la lona horizontal de la planicie, impregnada de respiraciones
condensadas. Vemos el acontecer del aire, detenido
en la transpiración de moscardones, azores a la espera
del siguiente día para embriagarse de ceniza.
A ello sumamos la lava diaria de los cadáveres, soterrados
o en la intemperie, enajenados por tanta mano de hojarasca.
El follaje es siniestro a la luz de cada transeúnte: la intuición
se ha hecho necesaria para transpirar esta capilla ardiente
en que el aliento se ahoga ante un amanecer de niebla,
sin más lucidez que el viejo discurso del hollín.

(Con todo este contubernio, conspiraciones y transacciones,
no podemos, el uno al otro, encontrar nuestra propia habitación:
no sólo es la polilla que permea el ala, es que la tortura
nos viene de todas direcciones, arrasa con el alma,
penetra irremediablemente en el cuerpo,
tiene plenas facultades para sucumbir en nuestro territorio;
y así, con sobresaltos, debo pensar en la mansión de tu pubis;
sonreírle por otro lado al paisaje desbocado, lanzarme,
precipitarme en el desvarío de la esperma.)

No hay ciudad que escape a este flagelo. —Libramos la sombra
del pavimento y la encrucijada, muere el oído y el olfato.
El devenir nos asedia con hambre obstinada, espectros
que muerden espíritu y razón, —la palabra tiene rostro de lana,
incertidumbres parecidas al infinito de la noche,
a la angustia del desamor que habita al mundo. Esta afonía,
es parte de los acantilados que nos avienta la noche
con sus perfiles de locura.

(Un día quizá ya no sea necesario un incensario detrás de la puerta,
ni haya que invocar almas puras; la sed supone sonidos nuevos
que giren en el imaginario de la garganta,
en esa ternura desconocida de tu ombligo, mi talón de Aquiles
al tacto, videncia de otra ventana en la bifurcación del camino.
El aliento es extraño cuando te me vienes en marejadas,
Cuando somos azotados, ya no por la violencia ecuménica,
sino por el delirio de la ciencia del orgasmo.)

Jamás la democracia tuvo un precio tan alto: pagamos los centímetros
de libertad que tenemos, con ese abandono cotidiano del sótano
sombrío y el embudo de la noche en los ecos;
en cada penuria, la sombra del hastío, el patio roto de los sentidos,
el sueño a punto de parir nuevos objetos, nuevos exteriores
para este abismo, donde es costumbre purificar los esqueletos
o convertirlos en simples estadísticas para los anuarios…


André Cruchaga- El Salvador