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terça-feira, 20 de março de 2012

ENUMERAÇÃO DO SILÊNCIO

ENUMERAÇÃO DO SILÊNCIO

Se o mundo fosse partido em pedaços, serias o seu silêncio.
J. Brossa

Um animal atravessa a clareira.
Sobre as pálpebras assenta o polvo.

Entre quatro ventos se trama a tormenta.
Nas paredes suspiram as gretas.

A palavra se detém, caiu uma estrela.
É melhor que fiquemos em silêncio. A eternidade é curta.


Natalia Litvinova – Bielorrúsia
Tradução ao portugês: Tania Alegria


*****

ENUMERACIÓN DEL SILENCIO

Si el mundo fuese roto en pedazos, serías su silencio
J. Brossa


Un animal atraviesa el claro.
Sobre los párpados se asienta el polvo.

Entre cuatro vientos se trama la tormenta.
En las paredes suspiran las grietas.

La palabra se detiene, cayó una estrella.
Es mejor que hagamos silencio. La eternidad es corta.


Natalia Litvinova- Bielorrusia

segunda-feira, 19 de março de 2012

PAVANA DO HOJE PARA UMA INFANTA DEFUNTA QUE AMO E CHORO

PAVANA DO HOJE PARA UMA INFANTA DEFUNTA QUE AMO E CHORO

A Alexandra Pizarnik


Pequena sentinela,
cais uma vez mais pela ranhura da noite
sem outras armas além dos olhos abertos e o terror
contra os invasores insolúveis no papel em branco.
Eles eram legião.
Legião encarniçada era seu nome
e se multiplicavam à medida que desmanchavas até o último alinhavo,
aquartelando-te contra as teias vorazes do nada.
Quem fecha os olhos se converte na morada de todo o universo.
Quem os abre traça as fronteiras e permanece à intempérie.
Quem que pisa o risco não encontra o seu lugar.
Insónias como túneis para provar a inconsistência de toda realidade;
noites e noites perfuradas por uma só bala que te incrusta na escuridão,
e o mesmo ensaio de reconhecer-te ao despertar na memória da morte:
essa perversa tentação,
esse anjo adorável com focinho de porco.
Quem falou de conjuros para contra-arrestar a ferida do próprio nascimento?
Quem falou de subornos para os emissários do próprio porvir?
Só havia um jardim: no fundo de tudo há um jardim
onde se abre a flor azul do sonho de Novalis.
Flor cruel, flor vampira,
mais aleivosa que a cilada oculta na felpa do muro
e que jamais se alcança sem deixar a cabeça ou o resto do sangue no umbral.
Mas tu te inclinavas da mesma forma para cortá-la onde não dava pé,
nos abismos de dentro.
Tentavas trocá-la pela criatura faminta que te desabitava.
Erigias pequenos castelos devoradores em sua honra;
te vestias com plumas desprendidas da fogueira de todo possível paraíso;
amestravas animaizinhos perigosos para roer as pontes da salvação;
te perdias como a mendiga no delírio dos lobos;
experimentavas linguagens como ácidos, como tentáculos,
como laços nas mãos do estrangulador.
Ah, os estragos da poesia cortando-te as veias com o gume da alvorada,
e esses lábios exangues sorvendo os venenos da inanidade da palavra!
E de repente não há mais.
Romperam-se os frascos.
Estilhaçaram-se as luzes e os lápis.
Rasgou-se o papel com o rasgão que desliza noutro labirinto.
Todas as portas são para sair.
Já tudo é o reverso dos espelhos.
Pequena passageira,
Sozinha com o teu mealheiro de visões
e o mesmo insuportável desamparo debaixo dos pés:
sem dúvida estás clamando para passar com tuas vozes de afogada,
sem dúvida te detém a tua própria imensa sombra que ainda te sobrevoa em busca de outra,
ou tremes diante de um insecto que cobre com suas membranas todo o caos,
ou te amedronta o mar que cabe desde o teu lado nesta lágrima.
Mas outra vez te digo,
agora que o silêncio te envolve duas vezes nas suas asas como um manto:
no fundo de todos os jardins há um jardim.
Aí está o teu jardim,
Talita cumi.


Olga Orozco - Argentina
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

PAVANA DEL HOY PARA UNA INFANTA DIFUNTA QUE AMO Y LLORO

A Alejandra Pizarnik


Pequeña centinela,
caes una vez más por la ranura de la noche
sin más armas que los ojos abiertos y el terror
contra los invasores insolubles en el papel en blanco.
Ellos eran legión.
Legión encarnizada era su nombre
y se multiplicaban a medida que tú te destejías hasta el último hilván,
arrinconándote contra las telarañas voraces de la nada.
El que cierra los ojos se convierte en morada de todo el universo.
El que los abre traza las fronteras y permanece a la intemperie.
El que pisa la raya no encuentra su lugar.
Insomnios como túneles para probar la inconsistencia de toda realidad;
noches y noches perforadas por una sola bala que te incrusta en lo oscuro,
y el mismo ensayo de reconocerte al despertar en la memoria de la muerte:
esa perversa tentación,
ese ángel adorable con hocico de cerdo.
¿Quién habló de conjuros para contrarrestar la herida del propio nacimiento?
¿Quién habló de sobornos para los emisarios del propio porvenir?
Sólo había un jardín: en el fondo de todo hay un jardín
donde se abre la flor azul del sueño de Novalis.
Flor cruel, flor vampira,
más alevosa que la trampa oculta en la felpa del muro
y que jamás se alcanza sin dejar la cabeza o el resto de la sangre en el umbral.
Pero tú te inclinabas igual para cortarla donde no hacías pie,
abismos hacia adentro.
Intentabas trocarla por la criatura hambrienta que te deshabitaba.
Erigías pequeños castillos devoradores en su honor;
te vestías de plumas desprendidas de la hoguera de todo posible paraíso;
amaestrabas animalitos peligrosos para roer los puentes de la salvación;
te perdías igual que la mendiga en el delirio de los lobos;
te probabas lenguajes como ácidos, como tentáculos,
como lazos en manos del estrangulador.
¡Ah los estragos de la poesía cortándote las venas con el filo del alba,
y esos labios exangües sorbiendo los venenos de la inanidad de la palabra!
Y de pronto no hay más.
Se rompieron los frascos.
Se astillaron las luces y los lápices.
Se degarró el papel con la desgarradura que te desliza en otro
laberinto.
Todas las puertas son para salir.
Ya todo es el revés de los espejos.
Pequeña pasajera,
sola con tu alcancía de visiones
y el mismo insoportable desamparo debajo de los pies:
sin duda estás clamando por pasar con tus voces de ahogada,
sin duda te detiene tu propia inmensa sombra que aún te sobrevuela en busca de otra,
o tiemblas frente a un insecto que cubre con sus membranas todo el caos,
o te amedrenta el mar que cabe desde tu lado en esta lágrima.
Pero otra vez te digo,
ahora que el silencio te envuelve por dos veces en sus alas como un manto:
en el fondo de todo jardín hay un jardín.
Ahí está tu jardín,
Talita cumi.


Olga Orozco- Argentina

domingo, 11 de março de 2012

LISBOA

LISBOA

As ruas de Lisboa mordiscam as esquinas
e lambem em segredo a pobreza,
soa um gemido frágil que roça como um fado,
como lágrima doce,
como um verso sanguíneo de Pessoa
fluindo pela veia do farsante.

Cais sobre o mundo como um rangido obsceno,
menina de joelhos sujos,
areia penetrada de palidez e escombro,
as beiradas do Tejo cospem nas tuas nádegas
quando estás mais despida,
quando soas a carne e a pendente
e lésbica te agitas.

Não há palavras que toquem este silêncio sujo
que brota em toda parte,
esse aroma lascivo dos cachorros subindo pelos músculos,
e tu, tão sua
balbucias na língua do vencido toda a escuridão perversa
e ofereces ao amor o esqueleto.

Vais à noite açoitada de cal, grávida de craveiros,
e amas, amas como não é possível amar
sem a prolongação do anjo,
sem o tempo que lentamente curva tua funda anatomia.
Tua nudez já não te pertence
nem tuas rezas
nem a espinha cruel da tua brancura onde se rompe o ar.

Porque tu, menina despenteada de rio,
com dulcíssimo tremor de andorinhas
rodopiaste no mar.


Sara Castelar Lorca- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria

Do poemário “El pulso”


*****

LISBOA

Las calles de Lisboa se muerden las esquinas
y lamen en secreto la pobreza,
suena un gemido frágil que roza como un fado,
como lágrima dulce,
como un verso sanguíneo de Pessoa
fluyendo por la vena del farsante.

Caes sobre el mundo como un crujido obsceno,
niña de rodillas sucias,
arena penetrada de palidez y escombro,
las orillas del Tajo te escupen en las nalgas
cuando estás más desnuda,
cuando suenas a carne y a pendiente
y lésbica te agitas.

No hay palabras que toquen este silencio sucio
que brota en todas partes,
ese aroma lascivo de los perros subiendo por los muslos,
y tú, tan suya
balbuceas en la lengua del vencido toda oscuridad perversa
y ofreces al amor el esqueleto.

Vas a la noche azotada de cal, preñada de claveles,
y amas, amas como no es posible amar
sin la prolongación del ángel,
sin el tiempo que lentamente curva tu honda anatomía.
Tu desnudez ya no te pertenece
ni tus rezos
ni la espina cruel de tu blancura donde se rompe el aire.

Porque tú, niña despeinada de río,
con dulcísimo temblor de gorriones
has girado en el mar.


Sara Castelar Lorca- España
Del poemario "El pulso"

QUESTÃO DE SORTE


QUESTÃO DE SORTE

De entre todos nós
haverá quem haja sido afortunado,
talvez eu
e não o sabia,
ou talvez algum outro,
não o posso afirmar.
Também não estou seguro
se vive em nós
a sombra da morte,
ainda que saiba que tingiu
de distância os corpos,
ou o despojado dourado
de frágeis momentos
cujo fulgor disperso
se perdeu.

Onde tudo começa
não há consciência,
não há inquietação calada,
delatam-se os pulsos
que dormiram o nada
e em plural domínio
das noites nascidas
do silêncio ditoso da ausência
tudo parece ser falsa memória,
luminosa imobilidade,
despertar sem saber amanhecer.

Mas onde,
onde foi que eu vi
como se fosse aquele
que renasceu?
Em que momento quebrei
a frequência da alma
que me estende
as pontes invertidas
do tempo?

Na borda de um instante
que raia a demência
divago entre lugares
como furtivo intruso da vida
que integram
e enquanto me pergunto
se não é questão de sorte
estar neles,
respiro seu dilema,
dispersam-se as questões
que neles se desvestem
outra vez,
e acomodo meus passos
à afável agonia
da sua dissolução horizontal.

Não importa.
Quiçá também vocês,
generosos amigos,
pensem alguma vez
que acaso hajamos sido afortunados.


Julián Borao- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

CUESTIÓN DE SUERTE

De entre todos nosotros
habrá quien haya sido afortunado,
tal vez yo
y no lo sepa,
o tal vez algún otro,
no puedo asegurarlo.
Tampoco estoy seguro
de si vive en nosotros
la sombra de la muerte,
aunque sé que ha teñido
de distancia los cuerpos,
o el despojo dorado
de frágiles momentos
cuyo fulgor disperso
se ha perdido.

Donde todo comienza
no hay conciencia,
no hay desazón callada,
se delatan los pulsos
que han dormido la nada
y en plural dominio
de las noches nacidas
del silencio dichoso de la ausencia
todo parece ser falsa memoria,
luminoso estatismo,
despertar sin saber amanecer.

¿Mas dónde,
dónde ha sido que he visto
como si fuera aquél
que ha renacido?
¿En qué momento he roto
la frecuencia del alma
que me tiende
los puentes invertidos
del tiempo?

Al filo de un instante
que raya la demencia
divago entre lugares
como furtivo intruso de la vida
que integran,
y mientras me pregunto
si no es cuestión de suerte
estar en ellos,
respiro su dilema,
disperso mis cuestiones
que en ellos se desnudan
otra vez,
y acomodo mis pasos
a la dulce agonía
de su disolución horizontal.

No importa.
Quizás también vosotros,
generosos amigos,
penséis alguna vez
que acaso hayamos sido afortunados.


Julián Borao- España

terça-feira, 6 de março de 2012

DIZ-LHE QUE NÃO ME TEMA, AMOR, E DIZ-LHE...


DIZ-LHE QUE NÃO ME TEMA, AMOR, E DIZ-LHE...

Diz-lhe que não me tema, amor, e diz-lhe
que eu estou ao seu lado como o ar,
como um cristal de névoa ou como o vento
que se aquieta na tarde.
Diz-lhe que não me fuja, amor, e diz-lhe
que não torne a ferir-me, que não me afaste,
que sou o brilho húmido em seus olhos
e o pulsar do seu sangue.
Diz-lhe que não me afaste, amor, e diz-lhe
que eu sou o pórtico da sua casa,
água da sua sede
e aquele único pão da sua fome.
Diz-lhe que não se oculte, amor, e diz-lhe
que já não tenho rosto nem sinais
de ter vivido antes que me amasse.
De ter vivido, antes.
Diz-lhe que não recorde e diz-lhe
que não respire, amor, sem respirar-me.


Julia Prilutzky- Argentina
Tradução ao português: Tania Alegria

*****

DILE QUE NO ME TEMA, AMOR, Y DILE...

Dile que no me tema, amor, y dile
que estoy a su lado como el aire,
como un cristal de niebla o como el viento
que se aquieta la tarde.
Dile que no me huya, amor, y dile
que no me vuelva a herir, que no me aparte,
que soy el brillo húmedo en sus ojos
y el latido en su sangre.
Dile que no me aleje, amor, y dile
que yo soy el umbral de su morada,
el agua de su sed
y aquel único pan para su hambre,
Dile que no se oculte, amor, y dile
que ya no tengo rostro ni señales
de haber vivido antes de quererme.
De haber vivido, antes.
Dile que no recuerde y dile
que no respire, amor, sin respirarme.


Julia Prilutzky- Argentina