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terça-feira, 27 de agosto de 2013

BANQUETE DE AMOR



BANQUETE DE AMOR

Arranco o bater do teu coração e colo-o ao meu,
junto algum sal das lágrimas que correm na distância de nós os dois,
misturo-lhe algum do sol que colho no teu olhar,
acrescento-lhe a paixão pelo luar
abraço tudo num abraço só nosso…
Desmancho-me em sorrisos,
acrescento-me olhares teus,
misturo com palavras doces,
que em corridas loucas
saem de dentro das nossas bocas
Rolamos debaixo do céu
ama-mo-nos
abraçando tudo que em nós se pode abraçar
colhemos frutos silvestres um no outro
abandonando-nos
ao que esperámos e desejámos,
quisemos com toda a nossa força
(sem)tida
num amor que é só meu…


 
Adelina Charneca- Portugal


*****

BANQUETE DE AMOR

Arranco el batir de tu corazón y lo pego a mí,
reúno sal de las lágrimas que corren en la distancia de nosotros dos,
mezclo algo del sol que arranco en tu mirada,
le añado la pasión por la luz de la luna
abrazo todo en un abrazo solo nuestro.
Me deshago en sonrisas,
añado miradas tuyas,
las mezclo con palabras dulces
que en carreras alocadas
salen de nuestras bocas.
Rodamos bajo el cielo
nos amamos
abrazando todo lo que en nosotros se puede abrazar
cogemos frutos silvestres el uno del otro
abandonándonos
a lo que esperamos y deseamos,
nos quisimos con toda nuestra fuerza
(sen)tida
en un amor que es solo mío…

 
Adelina Charneca
Poema inédito
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

quarta-feira, 14 de março de 2012

NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA


NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA

NÃO só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
.........Não menos nos limita.
Que os Deuses me concedam que, despido
De afectos tenha a fria liberdade
.........Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
.........Homem, é igual aos Deuses.


Fernando Pessoa- Portugal
Ricardo Reis
Pág: 290. "Un corazón de nadie"
Círculo de Lectores. Galaxia Gutemberg.


*****

NO SÓLO QUIEN NOS ODIA O NOS ENVIDIA

NO SÓLO quien nos odia o nos envidia
nos limita y oprime; quien nos ama
.........no menos nos limita.
Que los Dioses me concedan que, libre
de afectos, tenga la fría libertad
.........de las cumbres desnudas.
Quien quiere poco, tiene todo; quien nada quiere
es libre; quien no tiene y no desea,
.........hombre, es igual a los Dioses.


Fernando Pessoa- Portugal
Traducción al español: Ángel Campos Pámpano
Ricardo Reis
Pág: 291. "Un corazón de nadie"
Círculo de Lectores. Galaxia Gutemberg.

quinta-feira, 1 de março de 2012

NUNCA SÃO AS COISAS MÁIS SIMPLES


NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simple,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.


Nuno Júdice- Portugal


*****

NUNCA SON LAS COSAS MÁS SIMPLES

Nunca son las cosas más simples que aparecen
cuando las esperamos. Lo más simple,
como el amor, o lo más evidente de las sonrisas, no se
encuentra en el curso previsible de la vida. Pero, si
nos distraemos del calendario, o si el azar de los pasos
nos empujó hacia fuera del camino habitual,
entonces las cosas son otras. Nada de lo que se espera
transforma lo que somos si no fuese por:
un desvío en la mirada; o la mano que se demora
en tu hombro, forzando una aproximación
de los labios.


Nuno Júdice- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

UMA VOZ NA PEDRA


UMA VOZ NA PEDRA

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal


*****

UNA VOZ EN LA PIEDRA

No sé
si respondo o si pregunto.
Soy una voz que nació en la penumbra del vacío.
Estoy un poco ebria y estoy creciendo en una piedra.
No tengo la sabiduría de la miel o del vino.
De repente me yergo como una torre de sombra radiante.
Mi ebriedad es la de la sed y la de la llama.
Con esta pequeña chispa quiero incendiar el silencio.
Lo que yo amo no sé. Amo en total abandono.
Siento mi boca dentro de los árboles y de una oculta aurora.
Indecisa y ardiente, algo aún no es flor en mí.
No estoy perdida, estoy entre el viento y el olvido.
Quiero conocer mi desnudez y ser el azul de la presencia.
No soy la destrucción ciega ni la esperanza imposible.
Soy alguien que espera ser abierto por una palabra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A PALAVRA




A PALAVRA

A palavra é uma estátua submersa,um leopardo
que estremece em escuros bosques,uma anémona
sobre uma cabeleira.Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.


António Ramos Rosa- Portugal


*****

LA PALABRA

La palabra es una estatua sumergida, un leopardo
que tiembla en oscuros bosques, una anémona
sobre una cabellera. Es, a veces, estrella
que proyecta su sombra sobre un torso.
Aquí está, sin destino, en el rumor de la noche,
ciega y desnuda, mas plena de deseo
como una magnolia húmeda. Rápida es la boca
que sólo aflora los rayos de otra luz.
Le rozo sutilmente los tobillos, los cabellos ardientes
y observo el agua clara en la concha marina.
Es siempre un cuerpo amante y fugitivo
que canta en un mar de música la sangre de vocales.


António Ramos Rosa- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

VISITAÇÕES, OU POEMA QUE SE DIZ MANSO




VISITAÇÕES, OU POEMA QUE SE DIZ MANSO

De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.


Ana Luísa Amaral- Portugal


*****

VISITACIONES, O POEMA QUE SE DICE MANSO

Mansamente entró, mi hija.

La madrugada entraba como ella, pero no
tan mansamente. Los pies descalzos,
con un ruido menor que el de mi lápiz
y una risa mayor que la de mis versos.

Se sentó en mi regazo, mansita.

El poema me invadía como ella, pero no
tan mansamente, no con esta exigencia
tan mansa. Como un ladrón furtivo,
mi hija me robó la inspiración,
versos casi logrados, casi míos.

Y mansamente se adormeció aquí
feliz por su crimen.


Ana Luísa Amaral- Portugal

Traducción al español: Nidia Hernández

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

CORAÇÃO POLAR




CORAÇÃO POLAR

Não sei de que cor são os navios
quando naufragam no meio dos teus braços
sei que há um corpo nunca encontrado algures
e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial
a tua promessa nos mastros de todos os veleiros
a ilha perfumada das tuas pernas
o teu ventre de conchas e corais
a gruta onde me esperas
com teus lábios de espuma e de salsugem
os teus naufrágios
e a grande equação do vento e da viagem
onde o acaso floresce com seus espelhos
seus indícios de rosa e descoberta.

Não sei de que cor é essa linha
onde se cruza a lua e a mastreação
mas sei que em cada rua há uma esquina
uma abertura entre a rotina e a maravilha
há uma hora de fogo para o azul
a hora em que te encontro e não te encontro
há um ângulo ao contrário
uma geometria mágica onde tudo pode ser possível
há um mar imaginário aberto em cada página
não me venham dizer que nunca mais
as rotas nascem do desejo
e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos
quero o teu nome escrito nas marés
nesta cidade onde no sítio mais absurdo
num sentido proibido ou num semáforo
todos os poentes me dizem quem tu és.


Manuel Alegre- Portugal





*****

CORAZÓN POLAR

No sé de que color son los navíos
cuando naufragan en medio de tus brazos
sé que hay un cuerpo nunca encontrado en alguna parte
y que ese cuerpo vivo es tu cuerpo inmaterial
tu promesa en los mástiles de todos los veleros
la isla perfumada de tus piernas
tu vientre de corales y de conchas
la cueva donde me esperas
con tus labios de espuma y de salitre
tus naufragios
y la gran ecuación del viento y del viaje
donde el azar florece con sus espejos
sus indicios de rosa y descubrimiento.

No sé de que color es esa línea
donde se cruza la luna y el aparejo
pero sé que en cada calle hay una esquina
una apertura entre la rutina y la maravilla
hay una hora de fuego para el azul
la hora en que te encuentro y no te encuentro
hay un ángulo a la inversa
una geometría mágica donde todo puede ser posible
hay un mar imaginário abierto en cada página
no vengan a decirme que nunca más
las rutas nacen del deseo
y yo quiero el crucero del sur de tus manos
quiero tu nombre escrito en las mareas
en esta ciudad donde en el sitio más absurdo
en una dirección prohibida o en un semáforo
todos los ponientes me dicen quién eres.


Manuel Alegre- Portugal

Traducción al español: Ana Muela Sopeña

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

É URGENTE O AMOR




É URGENTE O AMOR

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade-Portugal


*****

ES URGENTE EL AMOR

Es urgente el amor.
Es urgente un barco en el mar.

Es urgente destruir ciertas palabras,
odio, soledad y crueldad,
algunos lamentos,
muchas espadas.

Es urgente inventar alegría,
multiplicar los besos, las cosechas,
es urgente descubrir rosas y ríos
y mañanas claras.

Cae el silencio en los hombros y la luz
impura, hasta doler.
Es urgente el amor, es urgente
permanecer.



Eugénio de Andrade- Portugal

Traducción al español: Ana Muela Sopeña





*****




Vídeo de este poema

http://www.youtube.com/watch?v=OacuVo6wa1E

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

ELEGIA




ELEGIA

Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás

No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
Ε os oceanos depois devagar te rodearam

A isso chamaste Orpheu Eurydice —
Incessante intensa lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontro do fracasso —.
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira rio
Em Junho


Sophia de Mello- Portugal


*****


ELEGÍA

Aprende
A no esperar por ti pues no te encontrarás

En el instante de decir sí al destino
Incierta te detuviste enmudecida
y los océanos después sin prisa te rodearon

A eso llamaste Orfeo Eurídice-
Incesante intensa la lira vibraba al lado
Del desfilar real de tus días
Nunca se distingue bien lo vivido de lo no vivido
El encuentro del fracaso-
Quién se acuerda del fino escurrir de la arena en el reloj
Cuando se alza el canto
Por eso la memoria sedienta quiere venir a la superficie
En busca de la parte con la que no diste
En el ronco instante de la noche más callada
O en el secreto jardín a orillas del río
En junio


Sophia de Mello- Portugal
Traducción al español: Diana Bellessi

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

ESPECTROS




ESPECTROS

Espectros que velais, enquanto a custo
Adormeço um momento, e que, inclinados
Sobre os meus sonos curtos e cansados,
Me encheis as noites de agonia e susto!

De que me vale a mim ser puro e justo,
E entre combates sempre renovados
Disputar dia a dia à mão dos Fados
Uma parcela do saber augusto,

Se a minha alma há-de ver, sobre si fitos,
Sempre esses olhos trágicos, malditos!
Se até dormindo, com angústia imensa,

Bem os sinto verter sobre o meu leito,
Uma a uma verter sobre o meu peito
As lágrimas geladas da descrença!


Antero de Quental- Portugal


*****

ESPECTROS

¡Espectros que veláis cuando a disgusto
me adormezco un momento, y que inclinados
sobre mis sueños breves y cansados
llenáis las noches de terror adusto!

De qué me vale a mí ser puro y justo
y entre combates siempre renovados
disputar día a día de los Hados
una parcela del saber augusto,

si- mi alma habrá de ver sobre sí inscritos
siempre esos ojos trágicos, malditos,
¡si en un sueno de angustias desoladas

los siento yo verter sobre mi lecho,
una a una verter sobre mi pecho,
sus descreídas lágrimas heladas!





Antero de Quental- Portugal

Traducción al español: José Antonio Llardent

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

POEMA A BOCA FECHADA






POEMA A BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca- e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


José Saramago- Portugal


*****

POEMA EN BOCA CERRADA

No diré:
que el silencio me sofoca y amordaza.
Callado estoy, callado quedaré,
porque la lengua que hablo es de otra raza.

Palabras consumidas se acumulan,
se remansan, cisterna de aguas muertas,
agrias penas en limos transformadas,
raíces retorcidas en el fango.

No diré:
que no merecen ni el esfuerzo de decirlas,
palabras que no digan cuanto sé
en un retiro donde nadie me conoce.

No sólo barro arrastran, no sólo lamas,
animales que flotan, muerte, miedos,
túrgidos frutos en ramos se entrelazan
en el oscuro pozo de donde suben dedos.

Sólo diré,
crispadamente recogido y mudo,
que quien se calla cuánto me callé
no se podrá morir sin decir todo.








José Saramago- Portugal


Traducción al español: Ángel Campos Pámpano

COISA AMAR




COISA AMAR

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
O mar, amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.


Manuel Alegre- Portugal





*****


COSA AMAR

Contarte largamente peligrosas
cosas del mar. Contarte amor ardiente
e islas que sólo hay en verbo amar.
Contarte largamente largamente.

Amor ardiente. Amor ardiente. Y mar.
Contarte largamente misteriosas
maravillas del verbo navegar.
El mar, amar: las cosas peligrosas.

Contarte largamente que ya ha sido
en tiempos dulce cosa amar. Y mar.
Contarte largamente que ha dolido

arribar a las islas misteriosas.
Contarte el mar ardiente y el verbo amar.
Y largamente cosas peligrosas.





Manuel Alegre- Portugal

Traducción al español: Tania Alegria

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TABACARIA




TABACARIA

NÃO SOU nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe
quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por
gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos
homens
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa a este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser atnesma coisa que não pode haver
tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos
certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —,
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha
razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que
Cristo
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de
uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que
comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de
estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno —não concebo bem o quê—,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritus invocam espíritus invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejos os passeios, vejo os carros que passam.
Vejos os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talves nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem
cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada
disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem
cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e
perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da alma mal-voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de
coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério
da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar
mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E contínuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou àjanela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das
calças?)
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da
Tabacaria sorriu.



Fernando Pessoa- Portugal


*****

TABAQUERÍA

NO SOY nada.
Nunca seré nada.
No puedo querer ser nada.
A parte de eso, tengo en mí todos los sueños del mundo.
Ventanas de mi cuarto,
De mi cuarto de uno de los millones en el mundo que nadie sabe
quién es
(Y si supiesen, ¿qué sabrían?),
Dais al misterio de una calle cruzada constantemente por gente,
A una calle inaccesible a todos los pensamientos,
Real, imposiblemente real, cierta, desconocidamente cierta,
Con el misterio de las cosas bajo las piedras y los seres,
Con la muerte que mancha de humedad las paredes y hace
blancos los cabellos de los hombres,
Con el Destino que conduce la carroza de todo por el camino de
nada.
Estoy hoy vencido, como si supiese la verdad.
Estoy hoy lúcido, como si estuviese por morir,
Y no tuviese más hermandad con las cosas
Que la de una despedida, tornándose esta casa a este lado de la
calle
La hilera de vagones de un tren, y el silbido de una partida
Dentro de mi cabeza,
Y una sacudida de mis nervios y un chirriar de huesos al arrancar.
Estoy hoy perplejo, como quien pensó y halló y olvidó.
Estoy hoy dividido entre la lealtad que debo
A la Tabaquería del otro lado de la calle, como cosa real por fuera,
Y a la sensación de que todo es sueño, como cosa real por dentro.
Fallé en todo.
Como no hice ningún propósito, tal vez todo fuese nada.
El aprendizaje que me dieron,
Descendí por la ventana trasera de la casa.
Fui al campo con grandes propósitos.
Pero allí sólo encontré yerbas y árboles,
Y cuando había gente era igual a la otra.
Me retiro de la ventana y me siento en una silla. ¿En qué he de
pensar?
¿Qué sé yo lo que seré, yo, que no sé lo que soy?
¿Ser lo que pienso? ¡Pienso ser tanta cosa!
¡Y hay tantos que piensan ser la misma cosa que no puede haber
tantos!
¿Genio? En este momento
Cien mil cerebros se piensan en sueños genios como yo,
Y la historia no señalará, ¿quién sabe? ni a uno,
No habrá sino un muladar para tantas futuras conquistas.
No, no creo en mí.
¡En todos los manicomios hay tantos locos deschavetados con
tantas certezas!
Yo, que no tengo ninguna certeza, ¿soy más cierto o menos cierto?
No, ni en mí...
¿En cuántas buhardillas y no buhardillas del mundo
No están en esta hora genios-para-sí-mismos soñando?
¿Cuántas aspiraciones altas y nobles y lúcidas—
Sí, verdaderamente altas y nobles y lúcidas—,
Y quién sabe si realizables,
¿Nunca verán la luz del sol real ni hallaran oídos de nadie?
El mundo es de quien nace para conquistarlo
Y no para quien sueña que puede conquistarlo, aunque tenga
razón.
He soñado más que Napoleón.
He abrazado contra el pecho hipotético más humanidades que
Cristo.
Hice filosofías en secreto que ningún Kant escribió.
Pero soy, y tal vez seré siempre, el de la buhardilla,
Aunque no viva en ella;
Seré siempre el que no nació para esto,
Seré siempre sólo el que tenía cualidades;
Seré siempre el que esperó que le abriesen la puerta al pie
de una pared sin puerta,
Y cantó la cantiga del Infinito en un gallinero,
Y escuchó la voz de Dios en un pozo cegado.
¿Creer en mí? No, ni en nada.
Que me derrame la Naturaleza sobre la cabeza ardiente
Su sol, su lluvia, el viento que me despeina,
Y lo demás que venga si viene o que tenga que venir, o que no
venga.
Esclavos cardíacos de las estrellas,
Conquistamos todo el mundo antes de levantarnos de la cama;
Pero nos despertamos y él es opaco,
Nos levantamos y es ajeno,
Salimos de casa y es la tierra entera,
Más el sistema solar y la Vía Láctea y lo Indefinido.
(Come chocolates, niña;
¡Come chocolates!
Mira que no hay más metafísica en el mundo que la de los
chocolates.
Mira que todas las religiones no enseñan más que la confitería.
¡Come, niña sucia, come!
¡Si pudiera yo comer chocolates con la misma verdad con que tú
los comes!
Pero yo pienso y, al quitarles el papel plateado, que es de estaño,
Arrojo todo al suelo, como tiré la vida.)
Pero queda al menos de la amargura de lo que nunca seré
La caligrafía rápida de estos versos,
Pórtico hendido hacia lo Imposible.
Pero al menos dedico a mí mismo un desprecio sin lágrimas,
Noble al menos por el gesto amplio con que arrojo
La ropa sucia que soy, sin motivo, para el decurso de las cosas,
Y me quedo en casa sin camisa.
(Tú que consuelas, que no existes y por eso consuelas,
O diosa griega, concebida como estatua con vida,
O patricia romana, imposiblemente noble y nefasta,
O princesa de trovadores, gentilísima y colorida,
O marquesa del siglo dieciocho, escotada y distante,
O cocotte célebre del tiempo de nuestros padres,
O no sé qué moderno —no concibo bien qué—,
Todo eso, sea lo que fuera, lo que sea, si puede inspirar ¡qué
inspire!
Mi corazón es un balde vacío.
Como invocan espíritus los que invocan espíritus me invoco
Me invoco a mí mismo y nada encuentro.
Me acerco a la ventana y veo la calle con una nitidez absoluta.
Veo las tiendas, veo las aceras, veo los coches que pasan.
Veo los entes vivos vestidos que se cruzan,
Veo los perros que también existen,
Y todo esto me pesa como un condena al destierro,
Y todo esto es extranjero, como todo.)
Viví, estudié, amé y hasta creí,
Y hoy no hay mendigo al que no envidie sólo por no ser yo.
En cada uno miro los andrajos y las llagas y la mentira,
Y pienso: tal vez nunca hayas vivido ni estudiado ni amado ni
creído
(Porque es posible hacer la realidad de todo eso sin hacer
nada de eso);
Tal vez hayas existido apenas, como un lagarto a quien cortan
la cola
Y que es cola más acá del lagarto que se retuerce.
Hice de mí lo que no supe,
Y lo que pude hacer de mí no lo hice.
Vestí un disfraz equivocado.
Me tomaron enseguida por quien no era, y no lo desmentí, y me
perdí.
Cuando quise arrancarme la máscara,
Estaba pegada a la cara.
Cuando la arrojé y me vi en el espejo,
Ya había envejecido.
Estaba borracho, y no sabía vestir el disfraz que no me había
quitado.
Arrojé la mascara y dormí en el vestidor
Como un perro tolerado por la gerencia
Por ser inofensivo
Y voy a escribir esta historia para probar que soy sublime.
Esencia musical de mis versos inútiles,
quién pudiera encontrarte como cosas que yo hice,
Y no quedarme siempre enfrente de la Tabaquería de enfrente,
Pisoteando la conciencia de estar existiendo,
Como un tapete con el que tropieza un borracho
O la esterilla que los gitanos roban y no vale nada.
Pero el Dueño de la Tabaquería se asomó a la puerta y se quedó
en ella.
Lo miro con la incomodidad de la cabeza torcida
Y con la incomodidad de una alma que mal entiende.
Él morirá y yo moriré.
Él dejará el letrero, yo dejaré versos.
Y un día morirá el letrero y también mis versos.
Después morirá la calle donde estuvo el letrero,
Y la lengua en que fueron escritos los versos.
Morirá después el planeta girante en que todo esto sucedió.
En otros satélites de otros sistemas cualquier cosa como nosotros
Continuará haciendo cosas como versos y viviendo debajo de las
cosas como letreros,
Siempre una cosa frente a otra,
Siempre una cosa tan inútil como la otra.
Siempre lo imposible tan estúpido como lo real,
Siempre el misterio del fondo tan cierto como el sueño del
misterio de la superficie,
Siempre ésta o aquella cosa o ni una ni la otra cosa.
Pero un hombre entró en la Tabaquería (¿a comprar tabaco?),
Y la realidad plausible cae de repente sobre mí.
Me incorporo a medias enérgico, convencido, humano,
Y voy a intentar escribir estos versos en los que digo lo contrario.
Enciendo un cigarro al pensar en escribirlos
Y saboreo en el cigarro la liberación de todos los pensamientos.
Sigo el humo como mi camino,
Y gozo, en un momento sensitivo y adecuado,
La liberación de todas las especulaciones
Y la conciencia de que la metafísica es la consecuencia de una
indisposición.
Después me reclino en la silla
Y sigo fumando.
Seguiré fumando hasta que el Destino me lo permita.
(Si me casase con la hija de mi lavandera
Tal vez sería feliz.)
Visto esto, me levanto de la silla. Me acerco a la ventana.
El hombre salió de la Tabaquería (¿guarda el cambio en el bolsillo
del pantalón?).
Ah, lo conozco: es Esteves sin metafísica.
(El Dueño de la Tabaquería llegó a la puerta.)
Como por un instinto divino, Esteves se volvió y me vio.
Hizo una señal de adiós, le grité ¡Adiós, Esteves!, y el universo
Se reconstruye en mí sin ideal ni esperanza, y el Dueño de la
Tabaquería sonrió.


Fernando Pessoa- Portugal
Traducción al español: Miguel Ángel Flores

EURYDICE






EURYDICE



Este é o traço em redor do teu corpo amado e perdido

Para que cercada sejas minha

Este é o canto do amor em que te falo
Para que escutando sejas minha

Este é o poema – engano do teu rosto
No qual busco a abolição da morte.


Sophia de Mello- Portugal
in No tempo Dividido (1954)




*****



EURÍDICE

Éste es el círculo que trazo alrededor de tu cuerpo amado y perdido
Para que cercada seas mía

Éste es el canto de amor con que te hablo
Para que escuchando seas mía

Éste es el poema -engaño de tu rostro
Donde busco la abolición de la muerte.


Sophia de Mello- Portugal
Traducción al español: Diana Bellessi

GRAVITAÇÃO UNIVERSAL




GRAVITAÇÃO UNIVERSAL

De novo o mar que espero
sentada à janela que dá para as rosas.
Que dá para todas as ruas que passei
com os teus passos. Para a estrada
onde virámos a cabeça para não ver
o homem esvaído no chão.
Depois comemos na casa de um amigo,
bebemos e falámos como se a vida fosse eterna.
À volta a estrada estava limpa, sem sinais
de sangue. As luzes sobre o mar nas duas margens
e a tua mão na minha perna. Lá no céu
um homem esventrado procura as suas asas.
Nada sei de anjos. Eu que espero o mar todos os dias
acredito na rotação da terra e na lei da gravidade.
Mas quando chegas o corpo não tem peso
e as palavras voam em redor de nós
alagadas em suor. E vem o mar.


Rosa Alice Branco- Portugal


*****

GRAVITACIÓN UNIVERSAL

De nuevo el mar que espero
sentada a la ventana que da hacia las rosas,
Que da hacia todas las calles por las que pasé
con tus pasos. Hacia los caminos
donde volteamos la cabeza para no ver
el hombre desvaído en el suelo.
Después comimos en la casa de un amigo,
bebimos y hablamos como si la vida fuera eterna.
De regreso la calle estaba limpia, sin señales
de sangre. Las luces sobre el mar en las dos márgenes
y tu mano en mi pierna. Allá en el cielo
un hombre sin vientre busca sus alas.
Nada se de ángeles. Yo que espero el mar todos los días
creo en la rotación de la tierra y en la ley de la gravedad.
Pero cuando llegas el cuerpo pierde peso
y las palabras vuelan alrededor de nosotros.


Rosa Alice Branco- Portugal

Traducción al español: Nidia Hernández

A HORA MAIS EXACTA




A HORA MAIS EXACTA

Imagens
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara
sentindo aproximar-se a hora
exacta.


Ana Luísa Amaral- Portugal


*****

LA HORA MÁS EXACTA


Imágenes
que volvían lentamente,
se recostaban en ella sin pudor.
Y en el silencio, la esfinge impenetrable,
conociendo el color del corazón:
renuente a los barcos
deponiendo por el suelo de otros palacios
las armas más preciosas.
No puedo, agregará
sintiendo que se aproxima
la hora exacta.





Ana Luísa Amaral- Portugal

Traducción al español: Nidia Hernández

domingo, 1 de janeiro de 2012

A NOSSA CASA




A NOSSA CASA

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onte está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Costrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...


Florbela Espanca- Portugal


*****


NUESTRA CASA

¡Nuestra casa amor, la casa nuestra!
¿Dónde está amor, que no la veo?
¡En locura de mi fantasía, en brasa
mi sueño, la construí en un instante!

¿Dónde está, amor, nuestra casa,
El bien que mas envidio en este mundo?
¿El tierno nido,donde nuestro beso
será más puro y dulce que un ala?

Sueño, que tú y yo, dos pobrecitos,
andamos de manos dadas por los caminos,
en medio de un rosal, en un jardín.

En un país de ilusión, que nunca vi...
Y que yo vivo_ ¡que lindo! _ dentro de ti,
y tú, amor mío, dentro de mí...



Florbela Espanca- Portugal
Traducción al español : Héctor Eliseo Escobar López
Fundación editorial El perro y la rana
Caracas - Venezuela

domingo, 18 de dezembro de 2011

ZOOLOGIA: O GATO




ZOOLOGIA: O GATO

Um gato, em casa, sozinho, sobe
à janela para que, da rua, o
vejam.

O sol bate nos vidros e
aquece o gato que, imóvel,
parece um objecto.

Fica assim para que o
invejem - indiferente
mesmo que o chamem.

Por não sei que privilégio,
os gatos conhecem
a eternidade.


Nuno Júdice- Portugal


*****

ZOOLOGÍA: EL GATO

Un gato, en casa, solitario, sube
a la ventana para que, de la calle
lo vean.

El sol pega en el vidrio
y calienta al gato que, inmóvil
parece un objeto.

Se queda así para que
Lo envidien indiferente
aunque lo llamen.

Por no se qué privilegio,
los gatos conocen
la eternidad.


Nuno Júdice- Portugal

Traducción al español: Nidia Hernández

AMOR SOLAR




AMOR SOLAR

Cansado dos homens afasto as nuvens
Em busca de uma árvore onde eu possa
Beber em paz e em paz
Construir o meu ninho. Ali
No tronco mais silencioso da grande casa
Não sou cidadão de país nenhum
Pai de nenhuma família
Sou apenas o cão mais humilde
Do mundo que há para além do mundo
Onde se medem ao milímetro
O bem e o mal. Nesse pátio
já não estou afastei-me
Quando perdi o sentido do peso
E das medidas - quando alguém me disse
e eu vi
Que numa gota de vinho há dez mil anos
De amor solar.


Casimiro de Brito- Portugal


*****

AMOR SOLAR

Cansado de los hombres aparto las nubes
En busca de un árbol donde pueda
Beber en paz y en paz
Construir mi nido. Ahí
En el tronco más silencioso de la gran casa
No soy ciudadano de ningún país
Padre de ninguna familia
Soy apenas el perro más humilde
Del mundo que hay más allá del mundo
Donde se miden milimétricamente
El bien y el mal. En ese patio
Ya no estoy, me aparté
Cuando perdí el sentido del peso
Y de las medidas cuando alguien me dijo
Y yo lo vi.
Que en una gota de vino hay diez mil años
De amor solar.


Casimiro de Brito- Portugal
Traducción al español: Nidia Hernández

NASCIMENTO ÚLTIMO




NASCIMENTO ÚLTIMO

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.


António Ramos Rosa- Portugal
No Calcanhar do Vento - 1987
in Antologia Poética





*****

NACIMIENTO ÚLTIMO

Como si no tuviera sustancia y con los miembros apagados.
Desearía enrollarme en una hoja y dormir en la sombra.
Y germinar en el sueño, germinar en el árbol.
Todo acabaría en la noche, lentamente, bajo la lluvia densa.
Todo acabaría por el más alto deseo en una sonrisa de nada.
En el encuentro y en el abandono, en la última desnudez,
respiraría al ritmo del viento, en la relación más viva.
Sería de nuevo el germen que fui, el rostro indivisible.
Y ebrias las palabras dirían el vino y la arcilla
y el reposo de ser en el ser, sus oscuras terrazas.
Entre rumores y ríos la muerte se perdería.





António Ramos Rosa- Portugal

Traducción al español: Nidia Hernández