sexta-feira, 29 de junho de 2012

ENTREVISTA A DOMINGO F. FAÍLDE


Sempre estamos acostumados a falar com os poetas de temas similares, pelo que hoje proponho perguntar a Domingo F. Faílde, poeta e crítico literário, alguns detalhes que tentam não reincidir no habitual:

- Três razões pelas quais nunca deveria ter escrito:

- Três ou três mil. A primeira: quem se arroja ao abismo da droga-adição converte-se em seu escravo. A segunda: navegar pelo magma da poesia é viajar ao inferno para ficar ali. A terceira: a quem os deuses querem perder, primeiro tornam-no louco, segundo dizem que disse Eurípedes. Em qualquer caso, como meu bom amigo Faelo Poullet, fico com aquela canção de Edith Piaf, non, je ne regrette rien, não me arrependo de nada.

- De que livro se arrepende mais, examinando toda a sua obra?

- Depois do que disse anteriormente, não posso arrepender-me de nenhum, mas não tenho inconveniente em assinalar o que menos me agrada: Cinco cantos a Himilce, apesar de que um grupo de teatro, Mamadou, fez com ele uma magnífica montagem cénica. Tenho a sensação de que esse livro me nasceu à traição e ainda continua me atraiçoando. Pior para ele…

- Conte-nos abertamente o principal motivo para apresentar-se a concurso e a maior dúvida a respeito.

- A ingenuidade congénita, de que alguns padecemos. Apresentar-se a um concurso era uma forma relativamente cómoda e rentável de conseguir a publicação de uma obra. Não negarei que sempre houve problemas – amiguismo, troca de favores –, mas, nesta última década, a corrupção do país e a aberrante substituição do conceito de cultura pelo de indústria cultural converteram prémios e concursos num espaço podre onde editores e agentes literários pugnam pelo financiamento de uma obra com fundos públicos – os primeiros – ou pela comissão correspondente – os segundos –, contando com a cumplicidade de jurados de confiança e outras práticas mafiosas. O caminho dos prémios está obstruído, salvatis salvandi. O maldito sistema capitalista pôs contra as cordas a literatura como tal.

- Valeu a pena nascer poeta?

-Eu formularia esta pergunta de outra maneira: valeu a pena nascer? Porque nascer poeta não é, no fundo, muito diferente de nascer cozinheiro ou agricultor, além da polémica sobre se alguém nasce ou se faz poeta. A vida é um absurdo e o universo um formoso – à vista desarmada – biscate. Venderam-nos a falsa ideia de um cosmos matemático e perfeito, mas sabemos que um pedregulho do tamanho de um parking pode acabar com a humanidade. Venderam-nos a ideia de uma vida sagrada e intocável, mas sabemos que os que predicam em nome de um suposto Criador são os primeiros a matar os dissidentes. E que sentido tem tudo isto? A vaga e improvável promessa de um prémio infantil e aborrecido? A ninguém ocorre criar uma coisa para logo, sem mais, destruí-la. O nada é o final e para isso bem poderíamos evitar-nos o esforço e o sofrimento de viver.

- Dou-lhe uma borracha para que sem nenhuma vergonha apague um escritor actual.

- Ao largo de meio século consagrado à literatura, também como crítico, jamais apaguei nenhum nome, ainda que haja criticado perfis concretos. Nunca tive madeira de inquisidor nem de comissário político: a estes sim, apagava-os sem contemplação, porque são nefastos, e faria o mesmo com os que se venderam e nos venderam ao poder, os escritores mediáticos, os oportunistas, os vira-casacas, os que constroem um búnquer com os direitos de autor, os manipuladores, os fanáticos, os que usam o sexo como moeda de câmbio Uma boa limpeza faria falta! O nome do opróbrio é o de menos.

- Fácil ou difícil mudar de sexo na palavra.

- Cada um tem o sexo com que nasceu ou o que quer ter. O homem – falo do ser humano, em toda sua extensão – é o único animal que pode eleger em consciência e inclusive enfrentar a natureza e ganhar a partida. Influi o sexo na literatura? Imagino que sim, mas influem sobretudo as condições materiais de existência derivadas da própria condição sexual. Dito isto como premissa, não escrevemos com a entreperna mas, no sentido mais amplo, com a inteligência.

- Similaridades que encontre entre um político e um poeta medíocre.

- Nenhuma, absolutamente nenhuma, a não ser que o poeta, além de medíocre, seja um perfeito sem-vergonha, um potencial ladrão, um indivíduo venal e carente de escrúpulos, disposto inclusive a chegar ao assassinato. Hoje em dia, não gozam os políticos de melhor opinião. Um poeta pode ser mau, medíocre, vulgar… mas sempre lhe restará a nobreza da palavra.

- Deve salvar uma voz viva, a qual atira a bóia?

- Nenhuma voz viva necessita que a salvem. Basta-lhe que lhe permitam fazer-se ouvir.

- Três motivos que não lhe deixem abandonar a palavra.

- Só um: a poesia é uma enfermidade incurável e devastadora. Acabará matando-me, é verdade, mas também me mataria o tentar deixá-la.

- Por que a sua obra não está no lugar que merece?

- Talvez porque os caixotes de lixo são excessivamente domésticos…



Domingo F. Faílde – Entrevistado
Dolors Alberola – Entrevistadora
Tradução ao português: Tania Alegria
Em Jerez a 24 de Junho de 2012


*****

Entrevista a Domingo F. Faílde realizada por Dolors Alberola (24/06/2012)


Siempre estamos acostumbrados a hablar con los poetas de temas similares, por lo que hoy propongo preguntarle a Domingo F. Faílde, poeta y crítico literario, algunos detalles que intentan no reincidir en la costumbre:

-Tres razones por las que no debiera haber escrito nunca.

-Tres o tres mil. La primera: quien se arroja al abismo de la drogadicción se convierte en su esclavo. La segunda: navegar por el magma de la poesía es viajar al infierno para quedarse en él. La tercera: a quien los dioses quieren perder, primero lo vuelven loco, según dicen que dijo Eurípides. En cualquier caso, como mi buen amigo Faelo Poullet, me quedo con aquella canción de Edith Piaf, non, je ne regrette rien, no me arrepiento de nada.

-¿De qué libro se arrepiente más, examinando toda su obra?

-Después de lo que dije anteriormente, no puedo arrepentirme de ninguno, pero no tengo inconveniente en señalar el que menos me gusta: Cinco cantos a Himilce, a pesar de que un grupo de teatro, Mamadou, hizo con él un magnífico montaje escénico. Tengo la sensación de que ese libro me nació a traición y sigue todavía traicionándome. Peor para él…

-Cuéntenos abiertamente el principal motivo para presentarse a concurso y la duda más grande al respecto.

-La ingenuidad congénita, que algunos padecemos. Presentarse a un concurso era una forma relativamente cómoda y rentable de conseguir la publicación de una obra. No negaré que siempre hubo problemas –amiguismo, intercambio de favores-, pero, en esta última década, la corrupción del país y la aberrante sustitución del concepto de cultura por el de industria cultural han convertido premios y concursos en un espacio podrido donde editores y agentes literarios pugnan por la financiación de una obra con fondos públicos –los primeros- o por la comisión correspondiente –los segundos-, contando con la complicidad de jurados de confianza y otras prácticas mafiosas. El camino de los premios está ocluido, salvatis salvandi. El maldito sistema capitalista ha puesto contra las cuerdas a la literatura como tal.

-¿Le mereció la pena nacer poeta?

-Yo formularía esta pregunta de otra manera: ¿le mereció la pena nacer? Porque nacer poeta no es, en el fondo, muy diferente de nacer cocinero o agricultor, más allá de la polémica sobre si nace o se hace el poeta. La vida es un absurdo y el universo una hermosa –a simple vista- chapuza. Nos vendieron la falsa idea de un cosmos matemático y perfecto, pero sabemos que un pedrusco del tamaño de un parking puede acabar con la humanidad. Nos vendieron la idea de una vida sagrada e intocable, pero sabemos que quienes la predican en nombre de un supuesto Creador son los primeros en matar a los disidentes. ¿Y qué sentido tiene todo esto? ¿La vaga e improbada promesa de un premio infantil y aburrido? A nadie se le ocurre crear una cosa para luego, sin más, destruirla. La nada es el final y para eso bien pudiéramos evitarnos el esfuerzo y el sufrimiento de vivir.

-Le doy un borrador para que sin vergüenza alguna nos borre de un plumazo a un escritor actual.

-A lo largo de medio siglo consagrado a la literatura, también como crítico, no he borrado jamás ningún nombre, aunque sí he criticado perfiles concretos. Nunca tuve madera de inquisidor ni de comisario político: a éstos, sí, los borraba sin ningún miramiento, porque son nefastos, y haría lo mismo con quienes se vendieron y nos vendieron al poder, los escritores mediáticos, los oportunistas, los que cambian de chaqueta, los que se construyen un búnker con los derechos de autor, los manipuladores, los fanáticos, los que usan el sexo como moneda de cambio… ¡una buena limpieza haría falta! El nombre del oprobio es lo de menos.

-Fácil o difícil cambiar de sexo en la palabra.

-Cada uno tiene el sexo con que ha nacido o el que quiere tener. El hombre –hablo del ser humano, en toda su extensión- es el único animal que puede elegir en conciencia e incluso enfrentarse a la naturaleza y ganarle la partida. ¿Influye el sexo en la literatura? Imagino que sí, pero influyen sobre todo las condiciones materiales de existencia derivadas de la propia condición sexual. Dicho esto como premisa, no escribimos con la entrepierna sino, en el sentido más amplio, con la inteligencia.

-Similitudes que encuentre entre un político y un poeta mediocre.

-Ninguna, absolutamente ninguna, a no ser que el poeta, además de mediocre, sea un perfecto sinvergüenza, un potencial ladrón, un individuo venal y carente de escrúpulos, dispuesto incluso a llegar al asesinato. Hoy por hoy, no gozan los políticos de mejor opinión. Un poeta puede ser malo, mediocre, vulgar… pero siempre le quedará la nobleza de la palabra.

-Debe salvar una voz viva, ¿a cuál le echa el flotador?

-Ninguna voz viva necesita que la salven. Le basta con que la dejen hacerse oír.

-Tres motivos que no le dejen abandonar la palabra.

-Sólo uno: la poesía es una enfermedad incurable y devastadora. Acabará matándome, es verdad, pero también me mataría si intentara dejarla.

-Por qué su obra no está en el lugar que merece.

-Tal vez porque los cubos de basura son excesivamente domésticos…


Domingo F. Faílde - Entrevistado
Dolors Alberola - Entrevistadora
En Jerez a 24 de Junio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

ME DÓI O AR

ME DÓI O AR

Me dói o ar que se enrosca no meu corpo
e deixa na minha pele a tua ausência

Ausência que pendura os meus sonhos nas luzes agónicas
dos velhos faróis
deixando dentro de mim a dor dos nenúfares mortos

Me machuca sem piedade a ternura quando me fala ao ouvido
e tu te ocultas nas sombras

Sombras que quebram a quietude das madrugadas ferindo-me
quando dormem os pássaros

E me morde…


Carmen Parra- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

ME DUELE EL AIRE

Me duele el aire que se enrosca a mi cuerpo
y deja en mí piel tu ausencia

Ausencia que cuelga mis sueños en las luces agónicas
de las viejas farolas

Dejando dentro de mí el dolor de los nenúfares muertos

Me lastima sin piedad la ternura cuando me habla al oído
y tu te ocultas en sombras

Sombras que quiebran la quietud de las madrugadas hiriéndome
cuando duermen los pájaros

Y me muerde ….
me muerde con fuerza la niebla donde te escondes
dejando una fuerte tela de araña que me apresa


Carmen Parra- España

domingo, 1 de abril de 2012

UMBRAL DOS SONÁMBULOS


UMBRAL DOS SONÂMBULOS

Não saberia explicar o que nos estremece,
os golpes do instinto que acompanham
o vaivém insurgente do desejo.

No ar
vestígios da sede

cova
umbral dos sonâmbulos
teu ventre

labirintos que conduzem

ao enigma do pranto.

O segredo és tu,
a selva inexplorada que ofereceste,
o lúbrico glaciar,

toda a minha superfície em tuas ladeiras.


Manuel M. Barcia- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


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UMBRAL DE LOS SONÁMBULOS

No sabría explicar lo que nos estremece,
los golpes del instinto que acompañan
al vaivén insurgente del deseo.

En el aire
vestigios de la sed

cueva
umbral de los sonámbulos
tu vientre

laberintos que conducen
ya
al enigma del llanto.

Lo secreto eres tú,
la selva inexplorada que ofreciste,
el lúbrico glaciar,

toda mi superficie en tus laderas.


Manuel M. Barcia- España

terça-feira, 27 de março de 2012

ENTRE DUAS GUERRAS


ENTRE DUAS GUERRAS

Venho entre duas guerras, quando emergem
dos despojos as ânforas antigas
e o vinho a sorvos sabe a um armistício,
um credo entre silêncios.

Repousam os corcéis das minhas tribos,
que num tropel de cascos sobre o pó
resgataram teu nome de entre as sombras.

Entre duas batalhas
eu venho a ti pequena e desarmada
sem manual de instruções para os meus medos.


Tania Alegria- Brasil


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ENTRE DOS GUERRAS

Me acerco entre dos guerras, cuando emergen
de los despojos ánforas añejas
y el vino a sorbos sabe a un armisticio,
un credo entre silencios.

Reposan los corceles de mis tribus,
que en un tropel de cascos, de entre el polvo,
rescataron tu nombre.

Entre dos guerras vengo,
niña y desangelada,
sin manual de instrucciones para el miedo.


Tania Alegria- Brasil

domingo, 25 de março de 2012

TORRE GUARDIÃ

TORRE GUARDIÃ

Os olhos mananciais de azul, maiores,
donos já da lembrança
em olhares sem ira. Nas mãos
o tempo, desenho de sangue detido
sobre a pele fria. Regueiros abertos
os lábios a palavras dissolvendo-se no ar
do sorriso breve;
no pulso congelado dos choupos
pólen velho e primavera,
ausente latejo de vida;
só os pássaros põem um pouco de calor
de verão,
luz, torre guardiã dos sonhos;
nascente de águas cristalinas os abesales,
sombra.


Julio G. Alonso- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


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TORRE GUARDIANA

Los ojos manantiales de azul, más grandes,
dueños ya del recuerdo
en miradas sin ira. En las manos
el tiempo, dibujo de sangre detenida
sobre la piel fría. Regueros abiertos
los labios a palabras disolviéndose en el aire
de la sonrisa breve;
en el pulso congelado de los chopos
polen viejo de primavera,
ausente pálpito de vida;
sólo los pájaros ponen un poco de calor
de verano,
luz, torre guardiana de los sueños;
veneros de aguas cristalinas los abesales,
sombra.


Julio G. Alonso- España



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Nota del autor:
El término abesal, abeseo, abesedo o aveseo(nombre de lugar) corresponde al leonés o llionés. No aparece en el DRAE, aunque hay términos leoneses que sí aparecen y que les adjudican ese origen. En este caso no es así. Los abesales son los lugares u oripiés de los montes que miran al norte, boscosos, fríos y húmedos. No todos los montes tienen un abesal, bien porque no haya vaguada o no esté poblado de vegetación, etc.

sábado, 24 de março de 2012

POEMA DE JULIO OBESO

POEMA DE JULIO OBESO

Hamed não mendiga
não corre adiante da polícia
ama profundamente a essa mulher
de mãos de tâmaras
mas chama-se Hamed
o padeiro recorda o seu aspecto
não o seu nome
e os camareiros chamam-no “mo-hamed”
não é esse o seu nome
os bombeiros não podem imaginar
qual era o seu aspecto
o fogo é o êxito do anónimo
mas chamava-se Hamed
orava no deserto
adorava a luxúria
e jamais entendeu aquele incêndio
não quis a solidão da sua mulher profunda
nem as coroas repudiando o racismo

Julio Obeso- Espanha
Tradução al português: Tania Alegria


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POEMA DE JULIO OBESO

Hamed no mendiga
no corre delante de la policía
ama profundamente a esa mujer
de manos dátiles
pero se llama Hamed
el panadero recuerda su aspecto
no su nombre
y los camareros le dicen “mo-hamed”
no es su nombre
los bomberos no pueden hacerse idea
de cuál era su aspecto
el fuego es el éxito de lo anónimo
pero se llamaba Hamed
oraba al desierto
adoraba la lujuria
y jamás entendió aquel incendio
no quiso la soledad de su mujer profunda
ni las coronas repudiando el racismo


Julio Obeso- España

sexta-feira, 23 de março de 2012

GALATA KULESI




GALATA KULESI


Contra o vento o som da torre de Gálata.
Sevgi Köse

Gálata guarda o canto rodado dos séculos para despertar o boneco de trapo da nossa civilização.
Gálata cerra ao entardecer os ecos da vida para que o prisioneiro das anomias veja como as flores da noite – gerânios e violetas – abrem as suas saias e nos mostram os seus sonhos.
Gálata corre as cortinas da chuva que separam as olheiras do insone nos esporões da realidade, como um sol carregado às costas que se aferra às ramas da vida.
Gálata pulveriza os sentidos com o vidro da dor dos transeuntes.
Gálata reconhece os espelhos que se encontram entre os insectos diferentes sob as asas dos pássaros que pousam o pensamento elevado.
Gálata devora ensimesmada a pele das estrelas caídas depois da ressaca de raki.
– Se dispões de um momento para visitar os contentores da tristeza desta cidade…


Pere Bessó- Espanha

De Aigües turques, 2010
Tradução ao português: Tania Alegria


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GÁLATA KULESI

Contra el vent el so de la torre de Gàlata
Sevgi Köse

Gàlata guarda el cudol dels segles per a despertar el nin de drap de la nostra civilització.
Gàlata tanca al capvespre els ecos de la vida perquè el presoner de les anòmies veja com les flors de la nit –geranis i violes- obrin les seues faldes i ens mostren els seus somnis.
Gàlata descorre les cortines de pluja que separen les ulleres de l'insomne en els esperons de la realitat, com un sol carregat a les esquenes que es cargola a les branques del cep.
lGàlata espolsa els sentits amb el vidre del dolor dels vianants.
Gàlata reconeix els espills que es troben entre els insectes diferents davall de les ales dels ocells que posen el pensament encimalat.
Gàlata devora abstreta la pell de les estrelles caigudes després de la ressaca de raki.
---Si tenies un moment per a visitar els contenidors de la tristesa d'aquesta ciutat...


Pere Bessó- Espanya
De Aigües turques, 2010


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GALATA KULESI

Contra el viento el sonido de la torre de Gálata
Sevgi Köse

Gálata guarda el canto rodado de los siglos para despertar el muñeco de trapo de nuestra civilización.
Gálata cierra al atardecer los ecos de la vida para que el prisionero de las anomias vea cómo las flores de la noche –geranios y violetas- abren sus faldas y nos enseñan sus sueños
Gálata descorre las cortinas de lluvia que separan las ojeras del insomne en los espolones de la realidad, como un sol cargado a las espaldas que se aferra a las ramas de la vida.
Gálata espolvorea los sentidos con el vidrio del dolor de los viandantes.
Gálata reconoce los espejos que se encuentran entre los insectos diferentes bajo las alas de los pájaros que posan el pensamiento encumbrado.
Gálata devora ensimismada la piel de las estrellas caídas tras la resaca de raki.
---Si tienes un momento para visitar los contenedores de la tristeza de esta ciudad...


Pere Bessó- España
De Aigües turques, 2010

quarta-feira, 21 de março de 2012

VINHA COM O ONTEM NO OLHAR


VINHA COM O ONTEM NO OLHAR

Vinhas com o ontem no olhar,
um riso inédito na tua boca
e umas ternas mãos para o abraço.
Eras um homem sem idade
mas com sonhos virgens
pendurados nas pálpebras.
Trazias amarrados os instantes do amor
e o assombro nos teus olhos porque eu…
ainda guardo a tua lembrança.
Nos bolsos trazias o manuscrito amarelo dos teus versos
e na alma o amor que fez de ti um menino travesso,
aprendiz de ceramista que modelou a seu bel-prazer o meu barro.
Agora te pergunto:
tomarias o trem de regresso sem escutar-me?
Há uma partida de xadrez entre tu e eu
que não terminou.


Carmen Parra- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria
Do poemário “Ausências e terra”


*****

VENÍAS CON EL AYER EN LA MIRADA

Venías con el ayer en la mirada
una risa inédita en tu boca
y unas tiernas manos para el abrazo
eras un hombre sin edad
pero con los sueños vírgenes
colgados de las pestañas
Traías amarrados los instantes del amor
Y el asombro en tus ojos porque yo…
aún guardo tu recuerdo
en los bolsillos traías el manuscrito amarillo de tus versos
Y en el alma el amor que hizo de ti un niño travieso
aprendiz de alfarero que modeló a su antojo mi barro
Ahora te pregunto
¿tomarías sin oírme el tren de regreso?
Hay una partida de ajedrez entre tu y yo
que no ha finalizado


Carmen Parra- España
Del poemario de Ausencias y tierra

terça-feira, 20 de março de 2012

ENUMERAÇÃO DO SILÊNCIO

ENUMERAÇÃO DO SILÊNCIO

Se o mundo fosse partido em pedaços, serias o seu silêncio.
J. Brossa

Um animal atravessa a clareira.
Sobre as pálpebras assenta o polvo.

Entre quatro ventos se trama a tormenta.
Nas paredes suspiram as gretas.

A palavra se detém, caiu uma estrela.
É melhor que fiquemos em silêncio. A eternidade é curta.


Natalia Litvinova – Bielorrúsia
Tradução ao portugês: Tania Alegria


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ENUMERACIÓN DEL SILENCIO

Si el mundo fuese roto en pedazos, serías su silencio
J. Brossa


Un animal atraviesa el claro.
Sobre los párpados se asienta el polvo.

Entre cuatro vientos se trama la tormenta.
En las paredes suspiran las grietas.

La palabra se detiene, cayó una estrella.
Es mejor que hagamos silencio. La eternidad es corta.


Natalia Litvinova- Bielorrusia

segunda-feira, 19 de março de 2012

PAVANA DO HOJE PARA UMA INFANTA DEFUNTA QUE AMO E CHORO

PAVANA DO HOJE PARA UMA INFANTA DEFUNTA QUE AMO E CHORO

A Alexandra Pizarnik


Pequena sentinela,
cais uma vez mais pela ranhura da noite
sem outras armas além dos olhos abertos e o terror
contra os invasores insolúveis no papel em branco.
Eles eram legião.
Legião encarniçada era seu nome
e se multiplicavam à medida que desmanchavas até o último alinhavo,
aquartelando-te contra as teias vorazes do nada.
Quem fecha os olhos se converte na morada de todo o universo.
Quem os abre traça as fronteiras e permanece à intempérie.
Quem que pisa o risco não encontra o seu lugar.
Insónias como túneis para provar a inconsistência de toda realidade;
noites e noites perfuradas por uma só bala que te incrusta na escuridão,
e o mesmo ensaio de reconhecer-te ao despertar na memória da morte:
essa perversa tentação,
esse anjo adorável com focinho de porco.
Quem falou de conjuros para contra-arrestar a ferida do próprio nascimento?
Quem falou de subornos para os emissários do próprio porvir?
Só havia um jardim: no fundo de tudo há um jardim
onde se abre a flor azul do sonho de Novalis.
Flor cruel, flor vampira,
mais aleivosa que a cilada oculta na felpa do muro
e que jamais se alcança sem deixar a cabeça ou o resto do sangue no umbral.
Mas tu te inclinavas da mesma forma para cortá-la onde não dava pé,
nos abismos de dentro.
Tentavas trocá-la pela criatura faminta que te desabitava.
Erigias pequenos castelos devoradores em sua honra;
te vestias com plumas desprendidas da fogueira de todo possível paraíso;
amestravas animaizinhos perigosos para roer as pontes da salvação;
te perdias como a mendiga no delírio dos lobos;
experimentavas linguagens como ácidos, como tentáculos,
como laços nas mãos do estrangulador.
Ah, os estragos da poesia cortando-te as veias com o gume da alvorada,
e esses lábios exangues sorvendo os venenos da inanidade da palavra!
E de repente não há mais.
Romperam-se os frascos.
Estilhaçaram-se as luzes e os lápis.
Rasgou-se o papel com o rasgão que desliza noutro labirinto.
Todas as portas são para sair.
Já tudo é o reverso dos espelhos.
Pequena passageira,
Sozinha com o teu mealheiro de visões
e o mesmo insuportável desamparo debaixo dos pés:
sem dúvida estás clamando para passar com tuas vozes de afogada,
sem dúvida te detém a tua própria imensa sombra que ainda te sobrevoa em busca de outra,
ou tremes diante de um insecto que cobre com suas membranas todo o caos,
ou te amedronta o mar que cabe desde o teu lado nesta lágrima.
Mas outra vez te digo,
agora que o silêncio te envolve duas vezes nas suas asas como um manto:
no fundo de todos os jardins há um jardim.
Aí está o teu jardim,
Talita cumi.


Olga Orozco - Argentina
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

PAVANA DEL HOY PARA UNA INFANTA DIFUNTA QUE AMO Y LLORO

A Alejandra Pizarnik


Pequeña centinela,
caes una vez más por la ranura de la noche
sin más armas que los ojos abiertos y el terror
contra los invasores insolubles en el papel en blanco.
Ellos eran legión.
Legión encarnizada era su nombre
y se multiplicaban a medida que tú te destejías hasta el último hilván,
arrinconándote contra las telarañas voraces de la nada.
El que cierra los ojos se convierte en morada de todo el universo.
El que los abre traza las fronteras y permanece a la intemperie.
El que pisa la raya no encuentra su lugar.
Insomnios como túneles para probar la inconsistencia de toda realidad;
noches y noches perforadas por una sola bala que te incrusta en lo oscuro,
y el mismo ensayo de reconocerte al despertar en la memoria de la muerte:
esa perversa tentación,
ese ángel adorable con hocico de cerdo.
¿Quién habló de conjuros para contrarrestar la herida del propio nacimiento?
¿Quién habló de sobornos para los emisarios del propio porvenir?
Sólo había un jardín: en el fondo de todo hay un jardín
donde se abre la flor azul del sueño de Novalis.
Flor cruel, flor vampira,
más alevosa que la trampa oculta en la felpa del muro
y que jamás se alcanza sin dejar la cabeza o el resto de la sangre en el umbral.
Pero tú te inclinabas igual para cortarla donde no hacías pie,
abismos hacia adentro.
Intentabas trocarla por la criatura hambrienta que te deshabitaba.
Erigías pequeños castillos devoradores en su honor;
te vestías de plumas desprendidas de la hoguera de todo posible paraíso;
amaestrabas animalitos peligrosos para roer los puentes de la salvación;
te perdías igual que la mendiga en el delirio de los lobos;
te probabas lenguajes como ácidos, como tentáculos,
como lazos en manos del estrangulador.
¡Ah los estragos de la poesía cortándote las venas con el filo del alba,
y esos labios exangües sorbiendo los venenos de la inanidad de la palabra!
Y de pronto no hay más.
Se rompieron los frascos.
Se astillaron las luces y los lápices.
Se degarró el papel con la desgarradura que te desliza en otro
laberinto.
Todas las puertas son para salir.
Ya todo es el revés de los espejos.
Pequeña pasajera,
sola con tu alcancía de visiones
y el mismo insoportable desamparo debajo de los pies:
sin duda estás clamando por pasar con tus voces de ahogada,
sin duda te detiene tu propia inmensa sombra que aún te sobrevuela en busca de otra,
o tiemblas frente a un insecto que cubre con sus membranas todo el caos,
o te amedrenta el mar que cabe desde tu lado en esta lágrima.
Pero otra vez te digo,
ahora que el silencio te envuelve por dos veces en sus alas como un manto:
en el fondo de todo jardín hay un jardín.
Ahí está tu jardín,
Talita cumi.


Olga Orozco- Argentina

sexta-feira, 16 de março de 2012

NUMQUAM LUMEN


NUMQUAM LUMEN

Ao rés-do-chão, enchíamos os bolsos de pedras
tão somente ao alcance dos dedos.
A frase do dia era:
Vetare vitam

Nós éramos crianças
e sentíamos o golpe da fome entre os ossos.

Saciar a sede das idades enjauladas: Uma pedra
Contemplar a nudez famélica de Ruth: Uma lágrima
Suspeitar a procedência de algum resto de pão que trouxe Raquel: Um horror
A frase do dia era:
Spes vitae

Nós éramos crianças
e contemplávamos abobados a rosa azul atrás do aramado.

Dentro de mim, a voz daquele que quer subir às árvores
Dentro de mim, a identidade daquele que escrevia rogos desatendidos
Dentro de mim, a lembrança de uns olhos indiscretos atrás da nuca
Dentro de mim, cada palavra dos que nunca figuraram em retratos.

Hoje permito-me falar com Deus
Algumas vezes creio que ele suspeita
que uma brisa de mundo vai ditando-me poemas,
porém eu, eu não sou poeta, jamais o fui.


Rossana Arellano- Chile
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

NUNQUAM LUMEN

A ras de suelo, nos llenábamos los bolsillos de piedras
nada más al alcance de los dedos.
La frase del día era:
Vetare vitam

Nosotros, éramos niños
y sentíamos el golpe del hambre entre los huesos.

Saciar la sed de las edades enjauladas: Una piedra
Contemplar la desnudez famélica de Ruth: Una lágrima
Sospechar la procedencia de algún resto de pan que trajo Rajel : Un horror
La frase del día era:
Spes vitae

Nosotros, éramos niños
y contemplábamos embobados la rosa azul detrás de la alambrada.

Dentro de mí, la voz, de aquel que quiere subirse a los árboles
Dentro de mí, la identidad, de aquel que escribía ruegos desatendidos
Dentro de mí, el recuerdo, de unos ojos indiscretos tras la nuca
Dentro de mí, cada palabra, de los que nunca figuraron en retratos.

Hoy me permito hablar con Dios
algunas veces creo que él sospecha,
que una brisa de mundo va dictándome poemas,
pero yo, no soy poeta, no, jamás lo he sido.


Rossana Arellano- Chile


*****


Vídeo de este poema. Voz y realización: Rosa Iglesias.
http://www.youtube.com/watch?v=-mI1bTHtLdk

quarta-feira, 14 de março de 2012

NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA


NÃO SÓ QUEM NOS ODEIA OU NOS INVEJA

NÃO só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
.........Não menos nos limita.
Que os Deuses me concedam que, despido
De afectos tenha a fria liberdade
.........Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo; quem quer nada
É livre; quem não tem, e não deseja,
.........Homem, é igual aos Deuses.


Fernando Pessoa- Portugal
Ricardo Reis
Pág: 290. "Un corazón de nadie"
Círculo de Lectores. Galaxia Gutemberg.


*****

NO SÓLO QUIEN NOS ODIA O NOS ENVIDIA

NO SÓLO quien nos odia o nos envidia
nos limita y oprime; quien nos ama
.........no menos nos limita.
Que los Dioses me concedan que, libre
de afectos, tenga la fría libertad
.........de las cumbres desnudas.
Quien quiere poco, tiene todo; quien nada quiere
es libre; quien no tiene y no desea,
.........hombre, es igual a los Dioses.


Fernando Pessoa- Portugal
Traducción al español: Ángel Campos Pámpano
Ricardo Reis
Pág: 291. "Un corazón de nadie"
Círculo de Lectores. Galaxia Gutemberg.

terça-feira, 13 de março de 2012

SINAIS

SINAIS

Nunca entendemos bem o porquê dos entalhes,
o temor ao efémero,
essa obscura obsessão de permanência
que têm os amantes quando já tudo importa.

Dobrávamos as páginas dos livros
que sem saber falavam de nós dois,
marcávamos as datas,
assinalávamos
o momento final das origens.

A vida era um espelho repetido mil vezes,
uma única verdade,
um só tempo sucessivo
onde olhar-se cada vez mais longe.

Só pode falhar o que não existe!
Repetíamos.

Depois soubemos que o amor acaba
ficando
para sempre
entalhado no córtex dos sonhos.


Luis Oroz- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

SEÑALES

Nunca entendimos bien el porqué de las muescas,
el temor a lo efímero,
esa oscura obsesión de permanencia
que tienen los amantes cuando ya todo importa.

Doblábamos las hojas de los libros
que hablaban, sin saberlo, de nosotros,
marcábamos las fechas,
señalábamos
el instante final de los orígenes.

La vida era un espejo repetido mil veces,
una sola verdad,
un solo tiempo sucesivo
donde mirarse cada vez más lejos.

¡Sólo puede fallar lo que no existe!
repetíamos.

Después supimos que el amor se acaba
quedando
para siempre
tallado en la corteza de los sueños.


Luis Oroz- España

domingo, 11 de março de 2012

LISBOA

LISBOA

As ruas de Lisboa mordiscam as esquinas
e lambem em segredo a pobreza,
soa um gemido frágil que roça como um fado,
como lágrima doce,
como um verso sanguíneo de Pessoa
fluindo pela veia do farsante.

Cais sobre o mundo como um rangido obsceno,
menina de joelhos sujos,
areia penetrada de palidez e escombro,
as beiradas do Tejo cospem nas tuas nádegas
quando estás mais despida,
quando soas a carne e a pendente
e lésbica te agitas.

Não há palavras que toquem este silêncio sujo
que brota em toda parte,
esse aroma lascivo dos cachorros subindo pelos músculos,
e tu, tão sua
balbucias na língua do vencido toda a escuridão perversa
e ofereces ao amor o esqueleto.

Vais à noite açoitada de cal, grávida de craveiros,
e amas, amas como não é possível amar
sem a prolongação do anjo,
sem o tempo que lentamente curva tua funda anatomia.
Tua nudez já não te pertence
nem tuas rezas
nem a espinha cruel da tua brancura onde se rompe o ar.

Porque tu, menina despenteada de rio,
com dulcíssimo tremor de andorinhas
rodopiaste no mar.


Sara Castelar Lorca- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria

Do poemário “El pulso”


*****

LISBOA

Las calles de Lisboa se muerden las esquinas
y lamen en secreto la pobreza,
suena un gemido frágil que roza como un fado,
como lágrima dulce,
como un verso sanguíneo de Pessoa
fluyendo por la vena del farsante.

Caes sobre el mundo como un crujido obsceno,
niña de rodillas sucias,
arena penetrada de palidez y escombro,
las orillas del Tajo te escupen en las nalgas
cuando estás más desnuda,
cuando suenas a carne y a pendiente
y lésbica te agitas.

No hay palabras que toquen este silencio sucio
que brota en todas partes,
ese aroma lascivo de los perros subiendo por los muslos,
y tú, tan suya
balbuceas en la lengua del vencido toda oscuridad perversa
y ofreces al amor el esqueleto.

Vas a la noche azotada de cal, preñada de claveles,
y amas, amas como no es posible amar
sin la prolongación del ángel,
sin el tiempo que lentamente curva tu honda anatomía.
Tu desnudez ya no te pertenece
ni tus rezos
ni la espina cruel de tu blancura donde se rompe el aire.

Porque tú, niña despeinada de río,
con dulcísimo temblor de gorriones
has girado en el mar.


Sara Castelar Lorca- España
Del poemario "El pulso"

QUESTÃO DE SORTE


QUESTÃO DE SORTE

De entre todos nós
haverá quem haja sido afortunado,
talvez eu
e não o sabia,
ou talvez algum outro,
não o posso afirmar.
Também não estou seguro
se vive em nós
a sombra da morte,
ainda que saiba que tingiu
de distância os corpos,
ou o despojado dourado
de frágeis momentos
cujo fulgor disperso
se perdeu.

Onde tudo começa
não há consciência,
não há inquietação calada,
delatam-se os pulsos
que dormiram o nada
e em plural domínio
das noites nascidas
do silêncio ditoso da ausência
tudo parece ser falsa memória,
luminosa imobilidade,
despertar sem saber amanhecer.

Mas onde,
onde foi que eu vi
como se fosse aquele
que renasceu?
Em que momento quebrei
a frequência da alma
que me estende
as pontes invertidas
do tempo?

Na borda de um instante
que raia a demência
divago entre lugares
como furtivo intruso da vida
que integram
e enquanto me pergunto
se não é questão de sorte
estar neles,
respiro seu dilema,
dispersam-se as questões
que neles se desvestem
outra vez,
e acomodo meus passos
à afável agonia
da sua dissolução horizontal.

Não importa.
Quiçá também vocês,
generosos amigos,
pensem alguma vez
que acaso hajamos sido afortunados.


Julián Borao- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

CUESTIÓN DE SUERTE

De entre todos nosotros
habrá quien haya sido afortunado,
tal vez yo
y no lo sepa,
o tal vez algún otro,
no puedo asegurarlo.
Tampoco estoy seguro
de si vive en nosotros
la sombra de la muerte,
aunque sé que ha teñido
de distancia los cuerpos,
o el despojo dorado
de frágiles momentos
cuyo fulgor disperso
se ha perdido.

Donde todo comienza
no hay conciencia,
no hay desazón callada,
se delatan los pulsos
que han dormido la nada
y en plural dominio
de las noches nacidas
del silencio dichoso de la ausencia
todo parece ser falsa memoria,
luminoso estatismo,
despertar sin saber amanecer.

¿Mas dónde,
dónde ha sido que he visto
como si fuera aquél
que ha renacido?
¿En qué momento he roto
la frecuencia del alma
que me tiende
los puentes invertidos
del tiempo?

Al filo de un instante
que raya la demencia
divago entre lugares
como furtivo intruso de la vida
que integran,
y mientras me pregunto
si no es cuestión de suerte
estar en ellos,
respiro su dilema,
disperso mis cuestiones
que en ellos se desnudan
otra vez,
y acomodo mis pasos
a la dulce agonía
de su disolución horizontal.

No importa.
Quizás también vosotros,
generosos amigos,
penséis alguna vez
que acaso hayamos sido afortunados.


Julián Borao- España

sábado, 10 de março de 2012

ABSURDO SILÊNCIO




ABSURDO SILÊNCIO

Vêm em silêncio e do silêncio,
os mil, milhões de olhos incendiados pela fome,
roubados ao trigo negro que gela os músculos da fome.

Vêm ainda adormecidos, não mortos,
adormecidos pelo princípio de que todos os homens são iguais.

A flor do fogo murcha as suas voces.
São muitos e no entanto inamovíveis, vencidos,
dormem, morrem, num absurdo silêncio.

Há tanto tempo isso acontece...

Mas
e se um deles, somente um
levantasse o punho e golpeasse os muros.

Seguramente ficaria adormecido,
morto para sempre.

Mas
e se depois de morto,
junto à sua tumba, outro homem, ainda adormecido, não morto,
tomasse a sua voz e o seu punho e golpeasse os muros
e depois deste, outro e depois outro,
até formar uma maré irreprimível.

Uma maré de papoilas,
um caudal de mãos geneticamente enlaçadas,
uma lenta mas firme corrente de água
que inundasse os campos, as cidades,
as ruas, as cabeças sem passaporte.

Seguramente se formaria um formoso baile
dentro de um relâmpago
que abriría as comportas dos silos,
que abriria manicómios e celas,
que abriria esse lugar
esse outro lugar onde a noite não é eterna.



Concha González Nieto- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria





*****

ABSURDO SILENCIO

Vienen en silencio y del silencio,
los miles, millones de ojos incendiados por el hambre,
robados al trigo negro que hiela los músculos del hambre.

Vienen aún dormidos, no muertos,
dormidos por el principio de que todos los hombres son iguales.

La flor del fuego marchita sus voces.
Son muchos y sin embargo inamovibles,vencidos,
duermen, mueren, en un absurdo silencio.

Sucede así desde hace tanto...

Pero,
y si uno de ellos, solamente uno
levantase el puño y golpease los muros.

Seguramente quedaría dormido,
muerto para siempre.

Pero,
y si después de muerto,
junto a su tumba, otro hombre, aún dormido, no muerto,
tomase su voz y su puño y golpease los muros
y después de este, otro y después otro,
hasta formar una marea incontenible.

Una marea de amapolas,
un caudal de manos genéticamente enlazadas,
una lenta pero firme corriente de agua
que inundase los campos, las ciudades,
las calles, las cabezas sin pasaporte.

Seguramente se formaría un hermoso baile
dentro de un relámpago
que abriría las compuertas de los silos,
que abriría manicomios y celdas,
que abriría ese lugar,
ese otro lugar donde la noche no es eterna.


Concha González Nieto- España

sexta-feira, 9 de março de 2012

FOLHAS DE CAMPAINHAS


FOLHAS DE CAMPAINHAS

Mãos estendidas para outros olhares,
braços longos e tão obedientes,
mãos grandes e muito confessoras.

Se tu pudesses dizer algo naquele tempo,
falarias sobre o preço da terra,
sobre o desejo de cortar as folhas das campainhas
estendidas sobre os torrões pesados,
naquele velho e tão tórrido verão.

Muita falta de água havia então
em teus lábios gastos e gretados…

Não haveria sido bastante
a água dos sete mananciais,
para humedecê-las de alguma maneira.

Terrível tarefa a de reconhecer agora
teu rosto que se cobre mais amiúde
com folhas finas de campainhas.


Andrei Langa- Moldávia
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

FIRE DE VOLBURĂ

Mâini întinse spre privirile altora,
brațe lungi şi atât de cuminţi,
mâini mari şi mult prea mărturisitoare.

Dacă ai fi reuşit să vorbeşti atunci,
ai fi zis despre preţul pământului,
despre dorinţa de a plivi firele de volbură
întinse peste bulgării grei de țarâna,
în acea vară veche și atât de secetoasă.

Multă lipsă de apă atunci
pe buzele tale subțiri și spuzite…

Nu ar fi fost îndeajuns
nici apa a șapte izvoare,
ca să poată cumva să le umezească.

Cumplită sarcină să recunoști acum
chipul tău ce se acoperă tot mai mult
cu fire firave de volbură.


Andrei Langa- Republica Moldava

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HOJAS DE CAMPANILLA

Manos extendidas hacia otras miradas,
brazos largos y tan obedientes,
manos grandes y muy confesoras.

Si tú pudieras decir algo por entonces,
hablarías sobre el precio de la tierra,
sobre el deseo de cortar las hojas de campanilla
extendidas por encima de los terrones pesados,
en aquel viejo y tan tórrido verano.

Mucha falta de agua por entonces
en tus labios gastados y agrietados…

No habría sido bastante
el agua de los siete manantiales,
para humedecerlas de alguna manera.

Terrible tarea la de reconocer ahora
tu rostro que se cubre más a menudo
con hojas finas de campanilla.


Andrei Langa- Moldavia

terça-feira, 6 de março de 2012

DIZ-LHE QUE NÃO ME TEMA, AMOR, E DIZ-LHE...


DIZ-LHE QUE NÃO ME TEMA, AMOR, E DIZ-LHE...

Diz-lhe que não me tema, amor, e diz-lhe
que eu estou ao seu lado como o ar,
como um cristal de névoa ou como o vento
que se aquieta na tarde.
Diz-lhe que não me fuja, amor, e diz-lhe
que não torne a ferir-me, que não me afaste,
que sou o brilho húmido em seus olhos
e o pulsar do seu sangue.
Diz-lhe que não me afaste, amor, e diz-lhe
que eu sou o pórtico da sua casa,
água da sua sede
e aquele único pão da sua fome.
Diz-lhe que não se oculte, amor, e diz-lhe
que já não tenho rosto nem sinais
de ter vivido antes que me amasse.
De ter vivido, antes.
Diz-lhe que não recorde e diz-lhe
que não respire, amor, sem respirar-me.


Julia Prilutzky- Argentina
Tradução ao português: Tania Alegria

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DILE QUE NO ME TEMA, AMOR, Y DILE...

Dile que no me tema, amor, y dile
que estoy a su lado como el aire,
como un cristal de niebla o como el viento
que se aquieta la tarde.
Dile que no me huya, amor, y dile
que no me vuelva a herir, que no me aparte,
que soy el brillo húmedo en sus ojos
y el latido en su sangre.
Dile que no me aleje, amor, y dile
que yo soy el umbral de su morada,
el agua de su sed
y aquel único pan para su hambre,
Dile que no se oculte, amor, y dile
que ya no tengo rostro ni señales
de haber vivido antes de quererme.
De haber vivido, antes.
Dile que no recuerde y dile
que no respire, amor, sin respirarme.


Julia Prilutzky- Argentina

TE OFERECES COMO UMA DEUSA


TE OFERECES COMO UMA DEUSA

Te ofereces como uma deusa feita à minha medida
mas sabes que nego o amor às estátuas
e ainda estás a tempo de aprender o caminho
até o mar Negro no qual se banham os heróis

falam do teu pacto de sangue com as bruxas
que cobriram teu corpo de formosura
a troco de ser feliz um instante muito pequeno
enquanto tua fragilidade alcança a mudança.


Fernando Sabido- Espanha

Tradução ao português: Tania Alegria


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TE OFRECES COMO UNA DIOSA

Te ofreces como una diosa hecha a mi medida
pero sabes que niego el amor a las estatuas
y aún estás a tiempo de aprender el camino
hasta el mar Negro en el que se bañan los hèroes

hablan de tu pacto de sangre con las brujas
que han rebosado tu cuerpo de hermosura
a cambio de ser feliz un instante muy pequeño
mientras tu fragilidad alcanza la mudanza


Fernando Sabido- España

domingo, 4 de março de 2012

CISNES EM SOLIDÃO


CISNES EM SOLIDÃO

Despertou-me o aroma do incenso,
cisnes em solidão
e o tempo despojado do que nos evoca,
o sonho aquele de chuva e fogo,
quase a simetria do pulso de nós
sem jugos e sem noites,

precipícios de ti que assombram à luz
enquanto jazes comigo
na busca do espectro do amado.


Manuel M. Barcia- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


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CISNES EN SOLEDAD

Me despertó el aroma del incienso,
cisnes en soledad
y el tiempo despojado de lo que nos evoca,
el sueño aquel de lluvia y fuego,
casi la simetría del pulso de nosotros
sin yugos y sin noches,

precipicios de ti que asombran a la luz
mientras yaces conmigo
en busca del espectro de lo amado.


Manuel M. Barcia- España

TRÍPTICO À LUA (EROSÃO)


TRÍPTICO À LUA

(EROSÃO)

QUANDO A LUA ENCRESPA ENTRE ONDA E BARCO

A lua pincela silêncio de crepuscular demora
por ambiguidade de sombra esquivando o barco

Presságio de lua rota
onde se perde a perfeição do branco
em esférica que incrusta sua imobilidade de astro.

Cresce indomável em procissão de onda
extensa como mãe envelhecida.


*****

QUANDO A ONDA ENCRESTA ENTRE LUZ E BARCO

Imersa em dança de vela e âncora
cardume que escorrega em barco

Invólucro de água que resseca os lábios
por espuma minguada sobre tábuas

Se estende sigilosa como gata albina
que em cio se despedaça na rocha

Se estira retorna
prateia em margem submissa em caracol.


*****

QUANDO O BARCO ENCRESPA ENTRE LUA E ONDA

Mãe
alarga a cadeira
que venho em proa imerso em matriz.

Mastro e seláquio
confuso na vaga do teu sexo líquido

Abisma-te ao meu passo

Argila-me em espuma
como indefeso astro
redimido em voragem de dias
que alargam a tua gravidez

Abarca-me e encalha-me aos teus pés


Marina Centeno- México
Tradução ao português: Tania Alegria

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TRÍPTICO A LA LUNA

(EROSIÓN)


CUANDO LA LUNA CRESPA ENTRE OLA Y BARCO

La luna pincela silencio de crepuscular tardanza
por ambigüedad de sombra sorteando al barco

Presagio de luna rota
donde se pierde la perfección del blanco
en esférica que incrusta su inmovilidad de astro.

Crece indomable en procesión de ola
extensa como madre envejecida.


*****

CUANDO LA OLA CRESPA ENTRE LUNA Y BARCO

Inmersa en danza de vela y ancla
cardumen que lacia en barco

Envoltura de agua que reseca los labios
por espuma menguada sobre tablas

Se extiende sigilosa como gata albina
que en celo se estrella en la rocosa

Se estira retorna
platea en orilla sumisa en caracola


*****

CUANDO EL BARCO CRESPA ENTRE LUNA Y OLA

Madre
ensancha la cadera
que vengo en proa inmerso en matriz
Mástil y selacio
confuso en el oleaje de tu sexo líquido
Abísmate a mi paso
Arcíllame en espuma
como indefenso astro
redimido en vorágine de días
que alargan tu preñez

Abárcame y encállame a tus pies


Marina Centeno- México

sábado, 3 de março de 2012

PRAIA DE RETENÇÃO


PRAIA DE RETENÇÃO

Só tenho um pé
e não me leva à outra margem do sol.

Depois de cada mar
o amar está na borda
de um lírio gris.

O esqueleto de uma onda
parece um raio ambíguo;
semeia suas esporas
numa praia de retenção.


areia defunta
incrustado um verso de silício
no enxame de um poema dissecado
pela água que investe contra a maré
das rochas nascidas na raiz
dos ossos que mancharam seu aluvião.

Transcorre a paz.

Aconteço num solo infértil,
lodo que chamo água
pelo vício ao qual me abraço
caprichosamente nua e sem pele
para beijar as conchas vazias
que o sonho deixou no minha água-furtada
de clepsidras e almas de gaivotas líquidas
sedentas de chuva cáustica,
e logo desejar morrer.

Todos os recifes esperam
que o vento os varra,
mar adentro, terra afora,
onde a aresta dos olhos
não tem horizonte, nem poder,
e só o voltar atrás
equivale a tocar as mãos
obscenas
que ultrajaram o eco
que de mim ficou.


Montserrat Martínez- Espanha
Traduçao ao português: Tania Alegria


*****

PLAYA DE RETENCIÓN

Sólo tengo un pie
y no me lleva a la otra orilla del sol.

Después de cada mar
el amar está en el borde
de un lirio gris.

El esqueleto de una ola
parece un rayo ambiguo;
siembra sus esporas
en una playa de retención.

Polvo
arena difunta
engarzado un verso de sílice
al enjambre de un poema disecado
por el agua que embiste a la marea
de las rocas nacidas en la raíz
de los huesos que mancillaron su aluvión.

Transcurre la paz.

Acontezco en un suelo infértil,
lodo que llamo agua
por el vicio al que me abrazo
caprichosamente desnuda y sin piel
para besar las cuencas vacías
que el sueño dejó en mi ático
de clepsidras y almas de gaviotas líquidas
sedientas de lluvia cáustica,
y luego desear morir.

Todas las rompientes esperan
que el viento las barra,
mar adentro, tierra afuera,
donde la arista de los ojos
no tiene horizonte, ni poder,
y sólo el volver atrás
equivale a tocar las manos
obscenas
que ultrajaron al eco
que de mí quedó.



Montserrat Martínez- España

sexta-feira, 2 de março de 2012

PROCURA-SE UM AMIGO


PROCURA-SE UM AMIGO

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes- Brasil


*****

SE BUSCA UN AMIGO

No precisa ser hombre, basta ser humano, basta tener sentimientos, basta tener corazón. Precisa saber hablar y callar, sobre todo saber escuchar. Tiene que gustarle la poesía, la madrugada, el pájaro, el sol, la luna, el canto, los vientos y las canciones de la brisa. Debe tener amor, un gran amor por alguien, o si no echar de menos el no tener ese amor. Debe amar al prójimo y respetar el dolor que los transeúntes llevan consigo. Debe guardar secreto sin sacrificarse.

No es preciso que sea de primera mano, ni es imprescindible que sea de segunda mano. Puede ya haber sido engañado, pues todos los amigos son engañados. No es preciso que sea puro, ni que sea del todo impuro, pero no debe ser vulgar. Debe tener un ideal y miedo de perderlo y, en caso de no ser así, debe sentir el gran vacío que eso deja. Tiene que tener resonancias humanas, su principal objetivo debe ser el de amigo. Debe sentir pena por las personas tristes y comprender el inmenso vacío de los solitarios. Debe gustarle los niños y darle pena los que no puedan nacer.

Se busca un amigo que tenga los mismos gustos, que se conmueva, cuando sea llamado por el amigo. Que sepa conversar de cosas simples, de rocíos, de grandes lluvias y de recuerdos de la infancia. Se busca un amigo para no enloquecer, para contar lo que se ha visto de bello y triste durante el día, de los anhelos y de las realizaciones, de los sueños y de la realidad. Debe gustarle las calles desiertas, los charcos de agua y los caminos mojados, el borde de la carretera, el arbusto después de la lluvia, tumbarse en la hierba.

Se precisa un amigo que diga que vale la pena vivir, no porque la vida es bella, sino porque ya se tiene un amigo. Se precisa un amigo para dejar de llorar. Para no vivir inclinado en el pasado en busca de memorias perdidas.

Que nos golpee en los hombros sonriendo o llorando, pero que nos llame amigo, para tener la consciencia de que todavía se vive.


Vinicius de Moraes- Brasil

Traducción al español: Ana Muela Sopeña

IRRENUNCIÁVEL


IRRENUNCIÁVEL

Há muitos sóis e luas nos meus dias,
recordação de estrelas
nos meus céus,
noites de amor
nalgum rincão da alma
beijos adormecidos numa melancolia.

Há o meu sangue vertido nos abrolhos,
sombras escurecendo a alba,
esporas,
grilhetas,
fragmentos de cristal
e lágrimas que assomam aos meus olhos.
Miscelânea de cores
são meus escritos no papel molhado
que vão contando trovas
e uma vida funâmbula salvando meus vazios
com glórias e desditas
se remonto a memória aos meus alvores.
Hoje, chegada a hora do repouso
eu me nego à renúncia
de ainda beber nas águas desses rios,
a sede não se esgota nas cisternas,
me faltam horizontes por correr
e nunca pus final ao mundo que desejo.


Carlos Serra Ramos- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

IRRENUNCIABLE

Hay soles y hay lunas en mis días,
remembranza de estrellas
en mis cielos,
noches de amor
en un rincón del alma
y los besos dormidos en la melancolía.

Hay mi sangre vertida en los abrojos,
sombras oscureciendo el alba,
esposas,
grilletes,
esquirlas de cristal
y lágrimas que asoman por mis ojos.
Miscelánea de colores
son mis escritos sobre papel mojado
que van contando jácaras
y una vida funámbula salvando mis vacíos
con glorías y desdichas
si remonto la memoria a mis albores.
Hoy, que llegó la hora del sesteo
me niego a la renuncia
de beber en las aguas de los ríos,
que mi sed no se sacia en los estanques,
aun quedan horizontes que correr
y nunca puse fin al mundo que deseo.


Carlos Serra Ramos- España

NEB

NEB

Dizem que caminhas com o olhar perdido no asfalto, que aos teus passos faltaram os ponteiros do tempo. Dizem que as tuas mãos quebraram os momentos, e que os teus dedos cansados de ser carne abandonada se negaram a ser pluma dos teus versos.
Alguém me sussurra ao ouvido que a tua voz se cansou do teu próprio alento, refugiando-se num deus paralelo. Já não há idades para ti, as areias ficaram espalhadas por tumbas de faraós e Orión se apagou sob o olhar de outros mortais.
Dizem que caíste no vazio, enquanto eu esperava, rainha do teu instante, e que não pudeste transformar-te para não ferir a ti mesmo de desejos e solidões.
Dizem que danças segundos húmidos e mofados, que formas parte de sombras que se estendem como chicotes entrançados, para açoitar o vento que é a única coisa que te resta.
Alguém me sussurra ao ouvido que os teus olhos se vestiram de saudade e inquietude, que se fecham para não ver as paisagens frondosas que vão ficando aos lados do caminho. E hoje olhas o vidro do teu relógio tentando adivinhar teu reflexo, e só vês pó nos ponteiros, e só vês deserto, e só vês teus medos e só… só vês clausura.


Mónika Nude- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


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NEB

Dicen que caminas con la mirada perdida en el asfalto, que a tus pasos les faltaron las manecillas del tiempo. Dicen que tus manos quebraron los momentos, y que tus dedos cansados de ser carne abandonada se negaron a ser pluma de tus versos.
Alguien me susurra al oído que tu voz se ha cansado de tu propio aliento refugiándose en un dios paralelo. Ya no hay edades para ti, las arenas quedaron esparcidas por tumbas de faraones y Orión se apagó bajo la mirada de otros mortales.
Dicen que caíste en el vacío, mientras yo esperaba, reina de tu instante, y que no pudiste transformarte para no herirte a ti mismo de deseos y soledades
Dicen que bailas segundos húmedos y mohosos, que formas parte de sombras que se alargan como látigos trenzados, para azotar el viento que es lo único que te queda.
Alguien me susurra al oído que tus ojos se han vestido de añoranza e inquietud, que se cierran para no ver los paisajes frondosos que van quedando a los lados del camino. Y hoy miras el cristal de tu reloj intentando adivinar tu reflejo, y sólo ves polvo en las manecillas, y solo ves desierto, y sólo ves tus miedos y sólo...sólo ves encierro.


Mónika Nude- España

quinta-feira, 1 de março de 2012

NUNCA SÃO AS COISAS MÁIS SIMPLES


NUNCA SÃO AS COISAS MAIS SIMPLES

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simple,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.


Nuno Júdice- Portugal


*****

NUNCA SON LAS COSAS MÁS SIMPLES

Nunca son las cosas más simples que aparecen
cuando las esperamos. Lo más simple,
como el amor, o lo más evidente de las sonrisas, no se
encuentra en el curso previsible de la vida. Pero, si
nos distraemos del calendario, o si el azar de los pasos
nos empujó hacia fuera del camino habitual,
entonces las cosas son otras. Nada de lo que se espera
transforma lo que somos si no fuese por:
un desvío en la mirada; o la mano que se demora
en tu hombro, forzando una aproximación
de los labios.


Nuno Júdice- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

ESTE POEMA

ESTE POEMA

Na gare mais tristonha, um pensamento,
quase um sopro,
um murmúrio de trens que doem
com frio de cordões desamarrados.

(Escrevo com assombro letra e sulco,
sulco e sangue,
palavra, inverno e chicote,
e sigo sem saber o que é poesia).

Nesta gare sem nome, como uma pressa rota,
te espero e já te foste,
no entanto
adopto uma ternura de guarda-chuva
para chorar o nada
..................e todos seus parênteses.

Na gare mais tristonha
concluo este poema que avança
solidões.


Paloma Corrales- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

ESTE POEMA

En el andén más triste, un pensamiento,
casi un soplo,
un murmullo de trenes que se duelen
con frío de cordones desatados.

(Escribo con asombro letra y cauce,
cauce y sangre,
palabra, invierno y látigo,
y sigo sin saber qué es poesía).

En el andén sin nombre, como una prisa rota,
te espero y ya te has ido,
sin embargo
adopto una ternura de paraguas
para llorar la nada
......................y todos sus paréntesis.

En el andén más triste
concluyo este poema que avanza soledades.


Paloma Corrales- España

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

UMA VOZ NA PEDRA


UMA VOZ NA PEDRA

Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal


*****

UNA VOZ EN LA PIEDRA

No sé
si respondo o si pregunto.
Soy una voz que nació en la penumbra del vacío.
Estoy un poco ebria y estoy creciendo en una piedra.
No tengo la sabiduría de la miel o del vino.
De repente me yergo como una torre de sombra radiante.
Mi ebriedad es la de la sed y la de la llama.
Con esta pequeña chispa quiero incendiar el silencio.
Lo que yo amo no sé. Amo en total abandono.
Siento mi boca dentro de los árboles y de una oculta aurora.
Indecisa y ardiente, algo aún no es flor en mí.
No estoy perdida, estoy entre el viento y el olvido.
Quiero conocer mi desnudez y ser el azul de la presencia.
No soy la destrucción ciega ni la esperanza imposible.
Soy alguien que espera ser abierto por una palabra.


Antonio Ramos Rosa- Portugal
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

PRECISÃO

PRECISÃO

O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exatidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exatidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.


Clarice Lispector- Brasil


*****

PRECISIÓN

Lo que me tranquiliza
es que todo lo que existe,
existe con una precisión absoluta.
Lo que es del tamaño de una cabeza de alfiler
no se desborda en una fracción de milímetro
más allá del tamaño de una cabeza de alfiler.
Todo lo que existe es de una gran exactitud.
La pena es que la mayor parte de lo que existe
con esa exactitud
nos es técnicamente invisible.
Lo bueno es que la verdad nos llega
como un sentido secreto de las cosas.
Nosotros terminamos adivinando, confusos,
la perfección.


Clarise Lispector- Brasil
Traducción al español: Ana Muela Sopeña

CORAÇÃO DE LOBA

CORAÇÃO DE LOBA


A woman wired in memories
Adrienne Rich

O sonho azul do filtro hastado de cervo na neve flui no coração de pedra. Já sabes, o céu é o amor convidado da águia que desdobra suas asas sobre o precipício dos poetas. É uma ilusão da luz durante a noite dos espelhos nas entranhas da água. As estrelas caídas no lago do silêncio enquanto as gralhas da fábula bicam o coaxar das rãs que desafiaram a languidez do lótus e esmigalham o gelo sob o gemido das nuvens e das cinzas permutadas pela chuva. Esquece-te de todas as línguas para dizer a morte, mas deixa um sinal de queimadura do amor: o fogo da combinação de rosas e répteis, a chamada à oração, aulidos de lobos que brincam nas rochas do sangue. O vento agita seus flocos de neve latindo nas sendas nuas do desejo.


Pére Bessó- Espanha
De El gran cafetar, 29 dezembro 2011.
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

COR DE LLOBA


A woman wired in memories
Adrienne Rich

El somni blau del filtre banyut de cérvol en la neu s’escola al cor de pedra. Ja saps, el cel és l’amor convidat de l’àguila que desplega les seues ales dalt de la timba dels poetes. És una il•lusió de la llum durant la nit dels espills en les entranyes de l’agua. Les estrelles caigudes en l’estany del silenci mentre les grues de la faula picotegen el rauc de les granotes que desafiaren la llangor del lotus esmicolen el gel sota el gemec dels núvols i les cendres bescanviades per la pluja. Oblida’t de totes les llengües per a dir la mort, però deixa un senyal de cremada de l’amor: el foc de la combinació de roses i rèptils, la crida a l’oració, udolaments de llops que juguen en les roques de la sang. El vent sacsa els seus flocs de neu clapint en les senderes nues del desig.


Pere Bessó- Espanya
De El gran cafetar, 29 desembre, 2011


*****

CORAZÓN DE LOBA

A woman wired in memories
Adrienne Rich

El sueño azul del filtro astado de ciervo en la nieve fluye en el corazón de piedra. Ya sabes, el cielo es el amor invitado del águila que despliega sus alas sobre el precipicio de los poetas. Es una ilusión de la luz durante la noche de los espejos en las entrañas del agua. Las estrellas caídas en el lago del silencio mientras las grúas de la fábula picotean el croar de las ranas que desafiaron la languidez del loto desmigan el hielo bajo el gemido de las nubes y las cenizas permutadas por la lluvia. Olvídate de todas las lenguas para decir la muerte, pero deja una señal de quemadura del amor: el fuego de la combinación de rosas y reptiles, la llamada a la oración, aullidos de lobos que juegan en las rocas de la sangre. El viento agita sus copos de nieve latiendo en los senderos desnudos del deseo.


Pere Bessó- España
De El gran cafetar, 29 diciembre, 2011

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

SONHO

SONHO

Sonho que és vida e eu morte…

Cheia de orgulho, como chuva
que se aferra à nudez
e açoita o penso da ferida.

Assim, recorro tuas costelas
combato na estação dos teus ossos
e faço história na ponte que vai do umbigo ao teu sexo.

Transito em azul meus desvarios
bordo nos teus olhos preces do dia a dia,
antes que o soluço venha copular com meu silêncio.

E beijo, o silvestre que pousa na tua boca
enquanto escrevo a cegas um nós
sobre a humidade da tua pele, toda.

Me cravo no teu peito ferido,
perfuro o ponto exacto da minha morte
e ponho minha alma de poesia, no teu vermelho sangue.

De tanta solidão
a letra deixa esteira em plumas amarelas
que não conseguem alçar-se e sussurram inválidas.

Me abro em direcção aos teus sonhos
que penetram a mortalha das minhas alucinações
e maldigo o fantasma do idioma.

Amas, até a minha sombra sabe,
mas não o meu segredo decifrado
nem o meu canto, nem minha ferida.


Rossana Arellano- Chile
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

SUEÑO

Sueño que eres vida y yo muerte…

Llena de orgullo, como lluvia
que se aferra a la desnudez
y azota el parche de la herida.

Así, recorro tus costillas
combato en la estación de tus huesos
y hago historia en el puente que va del ombligo a tu sexo.

Transito en azul mis desvaríos
bordo en tus ojos plegarias del día a día,
antes que el sollozo venga a copular con mi silencio.

Y beso, lo silvestre que se posa en tu boca
mientras escribo a ciegas un nosotros
sobre la humedad de tu piel, toda.

Me clavo a tu pecho herido,
perforo el punto exacto de mi muerte
y pongo mi alma de poesía, en tu rojo sangre.

De tanta soledad
la letra deja estela en plumas amarillas
que no logran alzarse y susurran minusválidas.

Me abro hacia tus sueños
que penetran la mortaja de mis alucinaciones
y maldigo al fantasma del idioma.

Amas, lo sabe hasta mi sombra,
pero no mi secreto descifrado
ni mi canto, ni mi herida.


Rossana Arellano- Chile

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

B.B.

B.B.

“…foi tocar-te o que nos deu a coragem para parir-te…
mas não pude eu
nascer ainda
meu próprio parto”

Beatriz Boca


Essa mulher que leva o nome
suicida e virginal que a alimenta,
.....................sente a morte.

Reconhece o assombro entre os seus dedos,
a origem da sua fome nas costelas
mordendo a avidez daquela ausência e

funde-se com o mar, desabotoa a noite
pulsando entre sua lava e as exéquias
e deslumbra, num tremor, toda a espera.

Essa mulher que leva o nome
suicida e virginal que a alimenta
...............renasce do seu ventre.


Leonel Licea- Cuba
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

B.B

“…fue tocarte lo que nos dio el valor para parirte…
pero no he podido yo
nacer aún
mi propio parto”

Beatriz Boca

Esa mujer que lleva el nombre
suicida y virginal que la alimenta,
...................siente la muerte.

Reconoce el asombro entre los dedos,
el origen de su hambre en las costillas
mordiendo la avidez de aquella ausencia y

se funde con el mar, desabotona la noche
pulsando entre su lava y las exequias
y deslumbra, en un temblor, toda la espera.

Esa mujer que lleva el nombre
suicida y virginal que la alimenta
................renace de su vientre.


Leonel Licea- Cuba

domingo, 26 de fevereiro de 2012

EMBOSCADA


EMBOSCADA

Na metade do caminho da minha vida,
de repente me encontrei num bosque escuro…
Dante, A Divina Comédia.

Quanta razão ladina há num transe de confusões
numa esquina dos temporais da vida,
numa cova de qualquer rua das profundidades
pior ainda, no escuro lugar que ocupam as entranhas,
ao tocar o fundo e encontrar-se só diante de uma cadeira vazia.
O espelho me devolve uma desconhecida
isca para a frialdade de Saturno, devorando a minha seiva.
Não há cédula de regresso. Emboscada do predador.
Uma cilada no horizonte que humilha o tempo saturado
alucinado temporal que medra o mais valente
rendendo contas com o mesmíssimo inferno.
Ali, naquele abismo, uma gota de luz ou água se entrega
se desprende a venda que cega
e nascem umas asas – de borboleta – à beira do vazio…
Asas de lágrimas cosidas nas costas,
doadas pela luz,
lentamente voas em direcção ao resplendor
e um mar tão antigo como o tempo se abre aos pés
e prendes a flor de alhos loucos à tua boca
habitando velhos desertos, agora balcões floridos.
Voo, voo tão longe como quer o meu sorriso
para libar o néctar das essências.
O nojo da melancolia deixa um sabor amargo
e naquela emboscada, prometo adivinhar sombras e luzes
e ainda que o fio esteja torcido segues no teu enxoval de bosques…


Setembro selenita e amaranto.


Marisa León- Espanha
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

EMBOSCADA

A mitad de camino mi vida,
de repente me hallé en un bosque oscuro…
Dante, la Divina Comedia

Cuánta razón ladina hay en un trance de confusiones
en una esquina de los temporales de la vida,
en un socavón de cualquier calle de las profundidades
peor aún, en el oscuro lugar que ocupa las entrañas,
al tocar fondo y encontrarse sola ante una silla vacía.
El espejo me devuelve una desconocida
carnada para la frialdad de Saturno, devorando mi savia.
No hay cédula de regreso. Emboscada del depredador.
Un celaje en el horizonte que humilla al tiempo saturado
alucinado temporal que medra al más valiente
rindiendo cuentas con el mismísimo infierno.
Allí, en aquel abismo, una gota de luz o agua se entrega
se desprende la venda que ciega
y nacen unas alas –de mariposa- al filo del vacío…
Alas de lágrimas cosidas a la espalda, donadas por la luz,
lentamente vuelas hacia el resplandor
y un mar tan antiguo como el tiempo se abre a los pies
y prendes la flor de ajos locos a tu boca
habitando viejos desiertos, ahora balcones floridos.
Vuelo, vuelo tan lejos como quiere mi sonrisa
para libar el néctar de las esencias.
El empalago de la melancolía deja un sabor amargo
y en aquella emboscada, prometo adivinar sombras y luces
y aunque torcido el hilo sigues en tu ajuar de bosques…


Septiembre selenita y amaranto.

Marisa León- España

sábado, 25 de fevereiro de 2012

OS DEMÓNIOS NASCIAM NA ITÁLIA

OS DEMÓNIOS NASCIAM NA ITÁLIA

Os demónios nasciam na Itália
nos campanários abandonados
cada noite em que nós dormíamos
aconchegados junto à Fontana di Trevi.

Demónios pequenos como rugas
nas mãos
que ninguém olha
a não ser que o rosto
se contorça pelo terror:
(nossa máscara de aço
não pode ocultar a sinceridade
da carne,
última delatora de todas as idades
e quando o seu candor empalidece,
autêntico nome da morte).
Os demónios subiam-nos pelos cabelos
e acampavam nas nossas estreitezas,
nos resquícios abertos ao vento
dos nossos beijos,
entre as unhas que arranhavam
a pele nua e mutilada
dos nossos corpos,
entre os talos de grama
que se haviam pegado aos nossos dedos.

Rostos senis com corpos de andorinha,
que ninguém vê,
excepto nas caricaturas hilariantes
inúteis e irreversíveis
do poema.


Rosalía Linde – Espanha
Do poemário “Ossos de anjo”
Tradução ao português: Tania Alegria


*****

LOS DEMONIOS LE NACÍAN A ITALIA

Los demonios le nacían a Italia
en los campanarios abandonados
cada noche que nosotros dormíamos
acurrucados junto a la Fontana de Trevi.

Demonios pequeños como arrugas
en las manos,
que nadie mira
a no ser que el rostro
se contorsione por el terror:
(nuestra máscara de acero
no puede ocultar la sinceridad
de la carne,
última delatora de todas las edades
y cuando su candor palidece,
auténtico nombre de la muerte.)

Los demonios se nos subían por el pelo
y acampaban en nuestras estrecheces,
en los resquicios abiertos al viento
de nuestros besos,
entre las uñas que arañaban
la piel desnuda y mutilada
de nuestros cuerpos,
entre las briznas de hierba
que se nos habían pegado a los dedos.

Rostros seniles con cuerpos de vencejo,
que nadie ve,
excepto en las caricaturas hilarantes
inútiles e irreversibles
del poema.


Rosalía Linde- España
Del poemario "Huesos de ángel"

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR


NA PRIMEIRA PESSOA DO SINGULAR

Eu nunca quis ser pássaro.
E não sei porque insisto em conservar as asas.

Por dizê-lo sem sombra de retórica,
me acomodo de bruços em algo que ameaça
ser uma reflexão de ordem sensorial:

Acabo de instalar no telefone
um poema sinfônico de Liszt.
Daí se infere um ego demitido
da minha geração Kerouak-Ginsberg.

E há outros sintomas:
me sinto um samurai em floresta de espelhos,
navego a claraboia num barco sem convés.
Noto que só me falta, para não ser eu mesma,
adquirir uma casa na Toscana.

No entanto, isso não era previsível
quando deixei atrás as minhas margens
levando certa urgência em esquecer,
um guarda-chuva – pode ser que chova –
e sete lenços de dizer adeus.

Cheguei despaginada ao outro lado
desta longa e confusa travessia.
Mais me vale assumir que escorreguei da bússola
e caí no regaço do sistema.

Deveriam vender em algum quiosque
um breviário que ensine uma mulher
a não desescrever a própria história.

(O que há de escandaloso na poesia
é que falamos sempre de nós mesmos.)


Tania Alegria- Brasil


*****

EN PRIMERA PERSONA DEL SINGULAR

Nunca quise ser pájaro.
No sé por qué insisto en mantener las alas.

Por decirlo sin sombra de retórica
me acomodo de bruces en algo que amenaza
ser una reflexión de orden sensorial:

Acabo de instalar en el teléfono
un poema sinfónico de Liszt,
donde se infiere un ego dimitido
de mi generación Kerouak-Ginsberg.

Hay otros síntomas:
Me pienso samurái en un bosque de espejos.
Navego el tragaluz en un barco sin quillas.
Sólo me falta para ser otra persona
que me compre una casa en la Toscana.

Nada de eso estaba en lo previsto
cuando dejé mis márgenes
llevándome un olvido de la mano,
paraguas –por si llueve–
y mis pañuelos de decir adiós.

Llegué despaginada al otro lado
de mis cincuenta y siete travesías.
Mejor asumo que desvié la brújula
y me dejé caer en el sistema.

Deberían vender en algún sitio
un manual de existencia que enseñe una mujer
a no desescribir su propia historia.

(Lo que hay de impudicia en los poemas
es que una habla siempre de sí misma).

*
*
Tania Alegria- Brasil